quarta-feira, 28 de maio de 2008

O Humanismo Social de Calvino I

Parte I
O Trabalho, o Salário, o Comércio e o Banco
Por José Geraldo Magalhães Júnior

Nesse capítulo que trata as questões do dinheiro, dos bens econômico, do trabalho e da sociedade, Biéler nos apresenta um Calvino que denuncia o perigo espiritual das riquezas, que só é justificado, para o sustento da vida de seu proprietário e de sua família, e também para suprir as necessidades da sociedade como um todo.

Ao se tratar de trabalho, ele não pode ser uma fonte de opressão para o homem, mas é o meio pelo qual Deus dá o sustento para a humanidade. Portanto, o homem que fugir a essa obediência voluntária a Deus, estará sujeito a ser desligado da obra de Deus tornando-se uma fonte de problemas, ansiedade, injustiça e opressão. Para que isso não ocorra, o homem deve dar uma pausa em sua própria atividade deixando-se possuir por Deus e se entregando ao comando de seu próprio trabalho. Daí a importância do repouso, dia de descanso. Entretanto, como o desemprego é um flagelo social que deve ser combatido, privar o homem de seu trabalho, como diz Calvino, é como se degolássemos.

Conquanto, escreve Calvino, recebemos o alimento das mãos de Deus, ele nos ordenou que trabalhássemos. O trabalho não é, pois, invalidado na condição humana aqui na terra. Sabemos que todos os artesãos e trabalhadores dependem de seu salário para viver... Visto que Deus dessarte faz depender sua vida do esforço de suas mãos, isto é, de seu trabalho, privá-los dos meios necessários a esse trabalho é como se os degolássemos[1]

Sobre a doutrina do trabalho, Calvino é considerado um inovador em relação aos seus predecessores que, faziam do trabalho um dever terreno, sem uma relação imediata com a fé e a vida espiritual. Claro, isso de acordo com as doutrinas cristãs medievais. A escolástica, por exemplo, contribuiu para esvaziar de todo o prestígio e de todo valor espiritual as atividades profissionais. Em contra partida, Calvino liga estreitamente o trabalho com a vida cristã, destacando que o evangelho faz do trabalho a participação do ser humano na obra de Deus.
Seguindo o pensamento do autor que o salário é como um dom de Deus, surgem então algumas perguntas: Qual é o valor ideal do salário para o homem? Se o salário é um dom de Deus, o porquê uns recebem um dom maior que outros? Para compreender o real significado espiritual do salário, é preciso levar em conta uma verdade fundamental do evangelho: o homem não tem direito a nenhuma remuneração da parte de Deus. Tudo quanto recebe é expressão da graça do Deus Salvador que, misericordiamente provê o sustento para a vida. Na sua bondade Deus não deixa de conceder o necessário ao seu povo. O salmo 23 em sua tradução original reafirma isso com mais veemência no versículo 1 que diz: Javé (é) meu pastor eu não sentirei falta.

No entanto, é preciso ter uma tomada de consciência espiritual com respeito ao salário através do domínio da fé. Como nem todas as pessoas são cristãs para compreender essa dimensão espiritual, o salário tem que ter um preço justo, e equivalente ao preço de mercado, ou ditado pelas autoridades pública. Uma vez que o mercado de trabalho esteja saturado, não é lícito reduzir o salário a ponto de privar o trabalhador de viver com os seus. Calvino contestou essa posição, onde muitos ricos beneficiam dos pobres, espreitam as ocasiões para cortar pela metade os seus salários. Como o pobre não tem onde empregar e precisa de seu trabalho, ele aceita essa imposição.

[1] BIELER, André. O Pensamento Econômico e Social de Calvino. Pág. 52, São Paulo: Oikoumene, 1970.

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