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quarta-feira, 16 de março de 2011

A mulher ainda sofre violência

fonte: Expositor Cristão Março/2011

Por José Geraldo Magalhães e Diana Gilli

A violência contra a mulher existe há milhares de anos. Um dos primeiros relatos não foi registrado em nenhuma Delegacia da Mulher e muito menos em um Disque-Denúncia, por essa razão o criminoso ficou com o paradeiro ignorado. Mesmo assim, o crime ficou na história. Na ocasião, houve um caso de relação sexual forçada com uma mulher na cidade de Siquém, em Israel (Mundo Antigo). A vítima, Dina, foi assediada por um homem com o mesmo nome da cidade, Siquém. A história diz que “o homem viu Dina, pegou-a e a forçou a ter relações com ele”.

Se fosse no século XXI, de acordo com o  Secretário Executivo da Igreja Metodista, Dr. Alexandre Rocha Maia, “Siquém deveria ser enquadrado no Artigo 213 do Código Penal em vigor podendo pegar uma pena de 6 a 10 anos de reclusão”, no entanto, o crime de estupro foi registrado por Moisés por volta de 1450 anos antes de Cristo no livro sagrado, a Bíblia.O desfecho você encontra em Gênesis 34.1-3. Na ocasião, o criminoso não foi detido.
Casos como esse acontecem a todo instante. Segundo pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (IPEA), que ouviu 2.770 mulheres nas cinco regiões do país no final do ano passado, casos devem ser apurados mesmo quando a vítima não quer.
O resultado aponta que 81,9% da população concordam que a violência doméstica cometida contra mulheres é um grande desafio para a sociedade. De acordo com a pesquisa, 91% dos entrevistados defendem que haja uma investigação mais rígida e 78,6% consideram que a aplicação da Lei Maria da Penha, lei 13.340/2006 (a lei levou o nome da farmacêutica Maria da Penha Fernandes, que lutou pela condenação de seu agressor) pode diminuir a violência contra as mulheres. Em 2011 a lei completa cinco anos.

De onde vem a violência contra a mulher?
De acordo com a Cartilha da Violência Contra a Mulher, “a raiz da violência está marcada na sociedade porque esta ainda dá mais valor ao homem, o que por sua vez se reflete na forma de educar os meninos e as meninas. Enquanto os meninos são incentivados a valorizar a força física, a agressividade, ação, a dominação e a satisfazer seus desejos, inclusive os sexuais, as meninas são valorizadas pela delicadeza, beleza, submissão, sedução, sentimentalismo, dependência, passividade e o cuidado com os outros.

Na maioria dos casos de violência contra a mulher, ela é gerada por causa do uso de álcool, drogas e ciúmes”. Essa “violência contra a mulher afeta sua saúde, sua integridade física e pode levar facilmente ao assassinato”, afirma Eva Alterman Blay, Profa. Titular de Sociologia e Coordenadora Cientifica do NEMGE (Núcleo de Estudos da Mulher e Relações Sociais de Gênero) da Universidade Metodista de São Paulo (USP).

Medo
A Delegacia de Repressão a Crimes Contra a Mulher, em Juiz de Fora, MG, registra uma média 500 ocorrências mensais e fica entre as cidades que apresentam índices mais altos ao se tratar de violência contra a mulher. Os números mais recentes mostram que, em agosto de 2010, foram 578 ocorrências e 476 no mês anterior do mesmo ano.

Para a delegada, Sônia Parma, os números ainda são baixos. "A mulher não vem à delegacia logo após a agressão, a nossa porta é a última que ela chega", diz. Sônia aponta ainda que existam três tipos de violência: a psicológica que acontece geralmente no convívio familiar; a física que é visível e deixa marcas no corpo, aliás, esta é considerada a mais comum, com lesões leves; e a social que é praticada no convívio da sociedade.

O teólogo, Rev. Marcos Garcia, que desenvolveu seu doutorado em Ciências Sociais e da Religião e pastor da Catedral Metodista de São Paulo, afirma ter “testemunhos de jovens que se recordam de serem molestados na infância, tocados até mesmo na sua comunidade de fé”.

Pais não quiseram denunciar
Nathalia C. de 28 anos vive em Montes Claros, Minas Gerais e já passou na pele um tipo de violência. Ela tinha apenas 12 anos quando seu tio tentou molestá-la ainda dormindo. Ao sentir alguém lhe acariciando nas partes íntimas gritou e imediatamente seus pais se levantaram. “Meus pais ficaram estarrecidos, o sentimento era de desprezo, ódio, vontade de sair batendo, fazer justiça com as próprias mãos”, lembra-se a jovem.
Mesmo assim, o caso não foi registrado em uma Delegacia, Nathalia e seus pais apenas cortaram o relacionamento familiar com o agressor.
Segundo Marcos Garcia, “muitas vezes a pessoa sofre o abuso e não tem coragem de denunciar. Em algumas situações ela não tem força para isso (...) quando falamos em denunciar sempre o que nos vem à mente é ter que tomar uma posição. Às vezes queremos ficar de bem com todo mundo” disse. O pastor afirma ainda que “o lar cristão deve ser a base. É preciso considerar esse como um espaço de crescimento e desenvolvimento de uma vivência saudável”.

“Tive que passar por muitos tratamentos terapêuticos. Foi nojento, aquilo sempre me vinha à mente e de alguma forma eu ainda me sentia culpada, sei lá, passa tudo na nossa cabeça em um momento desses”, desabafa Nathalia C.

A jovem diz que todo esse pesadelo acabou com sua adolescência e a fez mudar de cidade. “Eu já pensei em acabar com a minha vida, mas vi que não valeria a pena, hoje vivo bem, não esqueci o que aconteceu, mas vivo bem”.
Violência moral contra a mulher
Não é só o homem que violenta a mulher, muitas vezes são mulheres, só que de outra forma. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho – OITU, um dos casos que mais vem chamando atenção nos últimos anos é a questão do assédio moral, principalmente dentro do ambiente de trabalho. A violência moral é entendida como qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria. Abaixo você pode ver  os dados e sintomas apresentados em uma pesquisa realizada na PUC sobre a violência moral. Depois de um tapa nas costas e muitos insultos, Simone de Gouvêa Rosa, de 35 anos, recorreu à Justiça. Desde junho de 2007 briga por uma indenização. A acusação é de agressão moral e física por parte de sua chefia. Abalada, a funcionária diz que passou por um psiquiatra e uma psicóloga e teve de tratar da depressão com muitos remédios. “Tomava calmantes, não conseguia dormir. Naquela época não conseguia sair de casa, nem tirava o pijama, ficava enfiada no quarto o dia inteiro à base de antidepressivos, afirma.


O pastor e psicólogo Nils Friberg alerta para os prejuízos que o assédio moral causa. De acordo com ele, a violência moral contra a mulher se caracteriza por gestos, condutas abusivas e constrangedoras; ainda humilhar, inferiorizar, amedrontar, menosprezar ou desprezar, ironizar, difamar, ridicularizar, risinhos, suspiros, piadas jocosas relacionadas ao sexo, ser indiferente à presença do/a outro/a, estigmatizar os/as adoecidos/as pelo e para o trabalho, colocá-los/as em situações vexatórias, falar baixinho acerca da pessoa, olhar e não ver ou ignorar sua presença, entre outros.

De acordo com Diná Branchini, da Pastoral de Combate ao Racismo da Igreja Metodista, a mulher negra também sofre com o assédio. “Que ocorre, ocorre. Desde a questão estética, principalmente se ela mantém o cabelo mais natural, podem falar que não está bem arrumada. Já ouvi casos de pessoas que não estavam dentro do padrão estético”, afirma ela.

O assédio moral é tão antigo quanto o trabalho. É interessante lembrar que o primeiro assédio moral fruto de uma relação laboral se encontra na Bíblia, em Gênesis, capítulo 37, versículos: 3 a 24. José, filho de Jacó, foi vitima de assédio moral por parte dos irmãos, estes com ciúmes do amor do pai pelo irmão mais novo, tramaram sua morte, como não tiveram coragem de subtrair sua vida física, tentaram privá-lo da presença e do amor do pai. José era odiado pelos irmãos não somente, pelo fato de o pai amá-lo mais e sim, também, por ter mais responsabilidade e desempenhar melhor a tarefa que os demais.

O que pode ser feito?
 - Procurar as Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAM), também chamadas de Delegacias da Mulher (DDM);
 - Ir até os Juizados Especiais, nos Conselhos Estaduais dos Direitos das Mulheres, Defensorias Públicas e, em organizações de mulheres;
- Disque-Denúncia 180, um serviço específico para receber queixas de violência doméstica contra a mulher que, somente até meados do ano passado registrou alta de 112% se comparado ao mesmo período do ano anterior (2009);
- No caso de assédio moral no ambiente de trabalho é necessário denunciar o ocorrido ao Sindicato da classe trabalhadora ou no Ministério do Trabalho.

Como fazer a denúncia
É de suma importância contar tudo em detalhes e, se possível levar testemunhas, ou indicar o nome e endereço delas. Se a vida dos filhos/as e/ou familiares sofrerem qualquer tipo de ameaças e a pessoa sentir que está em perigo, ela pode também procurar ajuda em serviços que mantêm casas-abrigo, que são moradias em local secreto onde a mulher e os filhos podem ficar afastados do agressor.

De acordo com o crime especificado, a mulher pode necessitar ou não de um advogado para entrar com uma ação na Justiça. Caso não tenha dinheiro para tal, o estado poderá nomear um/a advogado/a para defendê-la. O que acontece em muitos casos é a retirada da queixa por parte da mulher, assim o caso não segue adiante.

Muitas vezes a mulher se arrepende e desiste de levar a ação adiante. Em outros casos, a mulher vai até o final do processo para colocar um ponto nesse passado de medo e terror, além de pedir indenização pelos prejuízos sofridos. Para isso, ela deve procurar a Promotoria de Direitos Constitucionais e Reparação de Danos.


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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Será a religião a porta do céu ou do inferno?

Sei lá, esses dias estive pensando no grande emaranhado de religiões que encontramos no mundo. Não sei se é possível enumerá-las, podemos classificá-las como, protestantes, históricas, pentecostais, neopentecostais e por aí vai... Mas uma coisa me deixa encafifado e, nesse sentido, posso dizer que o preparo teológico na faculdade de teologia fez muita diferença. Refiro-me ao fato de haver tantas divisões no mundo religioso. Deus que me livre se todo o mundo fosse "crente", aliás, todo mundo é crente porque crê em alguma coisa, mas me refiro ao jargão "crente" usado no mundo evangélico. Ah, mais você que conhece um pouco da Bíblia deve se perguntar: "por que ele está dizendo isso se a Palavra de Deus diz no Salmo 33.12 que 'feliz é a nação cujo Deus é o Senhor!', e você me diz que Deus me livre se todo mundo fosse crente?". Realmente é isso que falei, você não entendeu errado; isso é nada mais que um processo da catarse, ou seja, colocar para fora tudo aquilo que pensamos. Quer saber? Não aguento ver mais os líderes religiosos, prencipalmente aqueles que não passaram por uma faculdade, nada de preconceito, mas a academia abre a visão para uma outra realidade possível. Cansei de ver pessoas que se intitulam como sendo "pastores", "apóstolos", "missionários", "Dr. Divindade" entre tantos outros, pregando um Evangelho de mentira, sem teologia e, muito menos a preocupação em mudar ou lutar por mudar a realidade das pessoas, principalmente no que tange ao contexto social. Chega de enganação!

Existem nessa mistura religiosa de crenças Igrejas sérias, comprometidas com o Reino e com o próximo, cito por exemplo, a Presbiteriana, Batista, Luterana, Metodista, os católicos, isso mesmo, não me refero a Igreja Católica e sim aos seus fieis, pois a história mostra como a igreja romana fez mal às pessoas. Quanto aos católicos, existem muita gente boa por aí, melhor que muitos crentes que não dão um bom testemunho e saem dando calotes por onde passam. Falo isso com conhecimento de causa.

Quando entrei para a faculdade de teologia tinha e, ainda tenho, a intenção de ajudar as pessoas a enxergarem uma outra possibilidade, fazer com que a própria pessoa descubra os caminhos, as decisões a serem tomadas. Não tenho e nunca quero ter uma receita pronta para resolver os problemas dos outros, mas voltanto ao início deste post, religião do latim religare, nada mais é que ligar o homem a Deus. Teologia é estudar as coisas a cerca de Deus. E quando estuda-se as coisas a cerca de Deus, nota-se principalmente que o Criador andou no meio do povo (os relatos bíblicos mostram isso). Não sei o porquê dessa "disputa religiosa" de quem tem o maior templo, qual a igreja com o maior número de membros etc... Há muitas coisas erradas nesse meio, aliás, diga-se de passagem, que das pouquíssimas vezes que Jesus entrou no templo (2), uma vez foi para chutar o pau da barraca mesmo (Jo 2. 13-22), ou seja, quando adulto derrubou as mesas dos cambistas que usurpavam o povo com a venda de animais para o sacrifício; e a outra vez quando criança foi com seus pais, mas não sei se ele não gostou do que viu e fugiu da presença de José e Maria (Lc 2). Fala verdade, se igreja fosse tão bom assim, Jesus teria construído um montão delas, no entanto ele preferiu anunciar o Reino de Deus na montanha (Mt 5), no caminho (Lc 24.13-35), à beira da praia quando encontra os pescadores e pedem para que eles possam seguí-lo, nas casas, enfim, deixo aqui para gente pensar: o Reino de Deus é para todos, sem distinção de raça, cor, sexo... A religião em si que quer viver isolada de tudo e todos  sem se preocupar com o lado social, sempre gera conflito, pelo menos é o temos visto no Oriente Médio.
 
Como pastor metodista me identifico com a teologia wesleyana que é um dos pilares desta Igreja. Concluo esse pequeno texto com três frases de John Wesley, fundador do metodismo no século XVIII:
  • "... o cristianismo é essencialmente uma religião social; e reduzi-la tão só a uma expressão solitária é destruí-la";  
  • "O Evangelho de Cristo não conhece outra religião que a social nem outra santidade que a santidade social. Este mandamento temos de Cristo, que o que ama a Deus, ame também ao seu irmão";
  • "Todo projeto para refazer a sociedade, que não se importa com a redenção do indivíduo, é inconcebível... E toda doutrina para salvar os pecadores, que não tem o propósito de transformá-la em guardiã contra o pecado social é inconcebível".
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sábado, 18 de dezembro de 2010

Um Natal de Esperança

Publicado originalmente no Jornal Expositor Cristão Dez/2010
Ao chegar o mês de dezembro muitas coisas mudam, por exemplo, as lojas mudam a decoração, o comportamento das pessoas é alterado para um clima de harmonia e festa, e por aí vai. Dizem que as pessoas se deixam envolver pelo espírito do natal e, consequentemente, agem e sentem de modo diferente, mais fraterno e humano. Essas mudanças são tão marcantes e visíveis que já no início do século 20 o escritor Machado de Assis chegou a exclamar: "Mudaria o Natal ou mudei eu?" em seu poema Sonetos de Natal publicado em Poesias Completas em 1901. A grande questão é o porquê as pessoas comportam assim somente nessa época do ano? Parece que descobrem mais beleza na vida e vivem sorrindo para os outros e para suas próprias vidas, como se estivessem na vida a passeio. Não seria uma hipocrisia? Será que há mais esperança para as pessoas nessa ocasião? Afinal, o que muda, de fato, no dia 25 de dezembro?

Jesus, o nazareno

Para responder as perguntas acima, o primeiro fato que há de se considerar é o local e a data do dia 25 de dezembro para se comemorar o natal. Será que Jesus realmente nasceu dia 25 e em Belém? Os relatos bíblicos de Mateus e Lucas que trazem a infância de Jesus não informam a data do nascimento do Messias, mas nos dizem que a cidade que Jesus nasceu é Belém. Essa não é a versão do evangelista Marcos que aponta ser em Nazaré. O fato é que tanto Mateus como Lucas, na fase adulta de Jesus o chamam de “Jesus de Nazaré”, por exemplo, o fato narrado por Mateus quando Pedro nega a Jesus, ele conta que uma criada estava no Pátio e ao ver Pedro afirma: “Tu estava com Jesus, o Galileu (...) e saindo para o vestíbulo, outra criada o viu e disse aos que ali estavam: Este também estava com Jesus, o nazareno” (Mt 26.69-71). Também percebemos o povo gritando em sua entrada triunfal em Jerusalém: “Este é Jesus, o profeta de Nazaré da Galileia” (Mt 21.11).

O mesmo acontece na narração lucana onde é mencionado que Jesus nasceu em Nazaré, embora o evangelista Lucas cite no capítulo 4 verso 16 que ele fora criado em Nazaré, sempre o chama de “Jesus de Nazaré”, por exemplo, ao realizar uma cura em Cafarnaum (Lc 4.34), ao curar o cego de Jericó (Lc 18.37), no caminho de Emaús no capítulo 24. No livro de Atos dos Apóstolos, também de autoria do evangelista Lucas, quando se refere a Jesus, o autor o trata da mesma forma (At 2.22; 3.6; 4.10; 10.38; 22.8).

Jesus, o belemita

Por que o local do nascimento de Jesus é considerado no mundo todo como sendo em Belém? O sacerdote e biblista argentino, Ariel Álvarez Valdéz, da Universidade Católica de Santiago de Esterro, Argentina, defende que isso é um fato histórico que precisa ser considerado, ou seja, os dois evangelistas, Mateus e Lucas, “quiseram afirmar que Jesus era o famoso Messias esperado pelo povo de Israel”, por essa razão eles citam que o nascimento de Jesus se deu em Belém, além do mais, segundo o biblista “o povo precisava entender que era necessário relatar a origem de Jesus levando em consideração a mentalidade judia, neste caso o futuro Messias deveria ser um descendente da família de Daví. Por volta do ano 500 a.C., apareceu em Jerusalém um profeta anônimo dizendo que o Messias viria de Belém. Essa profecia se encontra hoje no livro de Miqueias” (5.1-3), disse.

Se levarmos em conta a profecia de Natan (2Sm 7.4-16), Álvarez tem razão, pois a profecia diz que Deus havia garantido a Davi que nunca iria faltar um descendente seu como sucessor no trono de Jerusalém. O profeta Miqueias, segundo Álvarez, quis dizer que “Deus não olhava com bons olhos a cidade de Jerusalém porque era uma cidade que havia prostituído tantos reis com o poder e não era um bom lugar para nascer o Messias Ungido, e Davi, o rei mais humilde que houve em Israel, havia nascido em Belém. Portanto, se os judeus quisessem um novo rei deveriam preparar o ambiente como Belém”. Álvarez acrescenta ainda que a profecia “não pretendia fixar um lugar geográfico para o nascimento do sucessor do rei, o Messias Ungido, mas era uma proposta para aos governantes de voltarem à humildade e sensibilidade de suas origens. Ela era uma advertência do que Deus queria para os reis de Israel”.

Como surgiu o dia 25 de dezembro?

Para os cristãos, o local onde nasceu Jesus é indiferente, pode ser em Belém ou Nazaré. O que importa, de fato, é que Jesus é o Messias. O que dizer, então, do dia 25 de dezembro? Pois os evangelhos não mencionam a data exata do nascimento de Jesus. O pastor metodista, Edson Cortásio Sardinha, em matéria publicada no Jornal Avante, afirma que “a data do dia 25 de dezembro foi fixada pelos pagãos para celebrar o nascimento do sol Natalis solis invicti. Os pagãos só começaram a celebrar essa data no ano 274 d.C. Nesse período, a igreja estava passando pelos seus últimos e terríveis dias de perseguição. O paganismo estava ainda forte, e esta foi uma estratégia para apagar as raízes do Cristianismo e formar raízes religiosas nos pagãos”.

No ano 336, a Igreja de Roma assimilou essa festividade pagã como data do nascimento de Jesus Cristo, prática essa que começou a ser difundida a partir de Roma para as demais igrejas cristãs. Finalmente, em 440 d.C., o dia 25 de dezembro foi oficialmente estabelecido como data do nascimento de Jesus, o que, até hoje, é aceito por toda cristandade.


O que muda para as pessoas nessa época do ano?

Começamos esse texto dizendo sobre as mudanças significativas na vida das pessoas nessa época do ano, aliás, parece que todo mundo fica calibrado pelo espírito natalino fazendo germinar algumas características humanas benéficas que, durante todo o ano estiveram arquivadas lá no fundo da personalidade de uma grande maioria das pessoas.

Quando chega o Natal, as pessoas começam a ser mais sensíveis, elas abrem seus corações, muitas vezes, cheios de mágoas, ódios e tristezas para dar lugar à solidariedade estendendo as mãos como um gesto acolhedor de bondade, paz, alegria, festa e comunhão.

Nota-se no mês de dezembro uma nova energia que paira no ar, um espírito de otimismo se preparando para celebrar o nascimento de Jesus, mesmo que a pessoa não foi à Igreja com freqüência durante o ano, mas ela está envolvida nessa magia celestial. Uma grande maioria das igrejas cristãs prepara seus corais para exibirem as vozes dos tenores, contrautos e baixos em diversas apresentações, dentro e fora das igrejas como uma forma de anunciar a chegada do esperado Messias.

Não há dúvida, há uma nova esperança nesse mês! O comércio por sua vez, aproveita a ocasião fazendo a inversão dos valores ao afirmar que um Natal feliz é aquele que você ganha e doa presentes. Como cristãos, não podemos cair nessa cilada do comércio e gastar, sem um planejamento, pois no início do ano as despesas aumentam, por exemplo, IPVA, material escolar, IPTU, matrículas entre outras, além de embutir na cabeça das crianças que no Natal elas têm que ganhar presente. E as crianças de baixa renda? Como ficam nessa época do ano?


Quem ganha com o Natal?

Várias campanhas surgem nessa época do ano para beneficiar crianças carentes, por exemplo, alguns Supermercados são postos de arrecadação de brinquedos usados, e instituições como a UNIMED em João Pessoa que arrecadou toneladas de alimentos desde 2004. A Campanha está em sua 11ª edição, e a ideia é mobilizar todos os anos clientes, funcionários e cooperados na arrecadação de alimentos para doar a famílias carentes da Grande João Pessoa. De acordo com o site da instituição, O Natal pela Vida é promovida pelo Comitê de Entidades no Combate à Fome Pela Vida (COEP) e pelo Sistema Correio de Comunicação, em parceria com a Unimed João Pessoa e demais entidades participantes.

A iniciativa, que já arrecadou mais de 3 mil toneladas de alimentos para este ano, faz parte das ações que buscam alcançar os oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) e que devem ser atingidas por 191 países, inclusive o Brasil, até 2015.

Mais de 40 mil famílias espalhadas em 60 comunidades da Grande João Pessoa e de cidades do interior do Estado serão beneficiadas. A meta da cooperativa, para este ano, é de arrecadar 100 toneladas de alimentos, sendo 30 toneladas de fubá, 25 de açúcar, 20 de arroz, 15 de feijão e 10 de macarrão. A proposta de priorizar a arrecadação dos cinco tipos de alimentos é levar em conta não só a quantidade, mas o valor nutricional dos alimentos arrecadados para a Campanha Natal pela Vida. Esse é apenas um exemplo de instituições que fazem ações concretas para beneficiar famílias nessa época do ano.


Como contribuir?

Que tal começar a praticar agora mesmo, espalhando alegria, entusiasmo pela vida e felicidade para as pessoas? Um sorriso amigo, um abraço, um elogio, um carinho, algumas palavras cordiais ou de amor durante todo o ano não custam nada, você os tem dentro de si em fonte inesgotável! Existem outras formas de garantir um Natal feliz para as crianças, como por exemplo, o “adote uma criança” que pode ser desenvolvido com as crianças carentes de sua comunidade. Mas, não basta dar o presente, tem que dar amor, atenção, o importante é apresentar uma visão participativa, inclusiva e presencial no momento de entregar um presente, o casaco ou fazer uma refeição junto com as crianças; o retorno será sempre um sorriso dobrado.


Neste Natal, vamos produzir mais esperança. Isso é tudo que o povo precisa, apenas de esperança! O biblista, Dr. Milton Schwantes, professor da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista e no programa de Pós Graduação em Ciências da Religião na mesma Universidade, diz em seu livro Sofrimento e esperança no exílio que “os moradores das periferias urbanas viraram imensos acampamentos. As pessoas foram ficando sem nada, a não ser a escravidão ou o salário. Os povos latino-americanos foram transformados em exilados em seus próprios países. Aqui são habitantes. Mas aqui não são cidadãos” (p. 9). No exílio havia esperança! Esses imensos acampamentos é que precisam ser alcançados por cada um de nós.


Termino essa reflexão desejando um Natal com muita paz e alegria e que este ano que se inicia, não seja apenas um começo de ano, mas uma nova história em sua igreja, na sua família, em seus projetos pessoais e, principalmente, permita que o espírito natalino te envolva todos os dias do ano com a solidariedade, amor e compaixão do próximo.


Boas festas!

Pr. José Geraldo Magalhães Jr.

Veja também:

Rede Nacional de Mobilização Social http://www.coepbrasil.org.br  

Objetivos do Milênio http://www.objetivosdomilenio.org.br/  

Organização das Nações Unidas Brasil http://www.onu-brasil.org.br/  

Instituto de Responsabilidade Social de João Pessoa


Site da Sede Nacional da Igreja Metodista www.metodista.org.br
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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Sinais da queda

Fonte: Revista Cristianismo Hoje
A queda de uma igreja passa por cinco estágios nem sempre fáceis de perceber

Um pouco antes de terminar meus estudos em teologia, fui convidado para pastorear uma congregação no sul do Illinois, nos Estados Unidos. Aquele foi meu primeiro grande despertamento para as realidades da liderança pastoral – e uma experiência um tanto desconfortável. As habilidades ou dons que levaram a congregação a me convidar a ser seu líder espiritual foram, provavelmente, meu entusiasmo, minha pregação e minha aparente habilidade – mesmo sendo ainda jovem – em alcançar pessoas e fazê-las sentirem-se cuidadas.

O que não havia sido mencionado era o fato de aquela congregação estar desiludida devido a uma terrível divisão provocada pelo pastor anterior, que encorajou um grupo de cem pessoas a sair com ele para formar outra congregação. E bastaram apenas alguns meses para que eu percebesse que entendia muito pouco sobre liderar uma organização com aquele tamanho e complexidade, e ainda por cima, tão ferida. Com meus 27 anos, eu estava completamente perdido. Passara meus anos no seminário pensando que tudo que alguém precisava para liderar era uma mensagem carismática e uma visão encorajadora, e tudo o mais na vida da igreja seria perfeito. Ninguém havia me falado sobre grupos a serem dirigidos, equipes esperando resultados e congregações precisando ser curadas. Há quem tenha bom conhecimento de como conduzir uma comunidade cristã. Eu não tinha.

Foi naqueles dias de angústia que fui apresentado ao meu primeiro livro de liderança organizacional, The Effective Executive (“O executivo eficiente”), de Peter Drucker. Ali, percebi como as pessoas estão dispostas a alcançar objetivos que não podem ser atingidos. Aquele livro, provavelmente, me livrou de um nocaute no primeiro round em minha vida como um pastor. Desde aquela época, mais de quarenta anos atrás, incontáveis outros autores tentaram aprimorar os insights de Drucker. E nenhum deve ter tido mais sucesso nessa tarefa quanto Jim Collins. Não sei se ele tinha pessoas como eu em sua mente quando ele escreveu seus livros, mas muitos de nós, engajados ou não no trabalho pastoral, aprendemos muito com ele.

Recentemente, Collins e seu grupo de pesquisadores escreveram uma obra menor, com o nome How the Mighty Falls (ainda sem titulo em português), que segundo ele começou como um artigo e terminou como um livro. Collins afirma que foi inspirado em uma conversa durante um seminário, no qual alguns poucos líderes de setores tão diversos como o militar e o de empreendimentos sociais reuniram-se para explorar temas de interesse comum a todos.  O tema era a grandeza da América e os riscos desse gigantismo. O receio geral era de que o sucesso encobrisse o perigo e os alertas do declínio. Saímos de lá pensando em como seria possível perceber que uma organização aparentemente saudável enfrentava sérios problemas.

Parece ser cada vez mais real o fato de que grande parte dos líderes desconhece o problema vivido na sua organização. Em seu livro, Collins identifica cinco estágios no processo de derrapagem de uma instituição. O primeiro é a autoconfiança como fruto do sucesso. “Prestamos um desserviço a nós mesmos quando estudamos apenas sobre o sucesso”, afirma Collins. Uma pesquisa e análise acerca de empreendimentos, até mesmo na literaturas de liderança eclesiástica, mostra que poucos livros investigam as raízes do fracasso. Parece que existe no segmento cristão a presunção de que o sucesso é inevitável, razão pela qual não se torna necessário considerar as possíveis consequências de uma queda.

A confiança exagerada em si mesmos, nos sistemas que criam ou na própria capacidade para resolver tudo faz com que os líderes não enxerguem seus pontos de fraqueza. Subestimar os problemas e superestimar a própria capacidade de lidar com eles é autoconfiança em excesso. A ganância e a busca desenfreada por mais é outra das principais situações que derrubam um grupo ou organização. Geralmente, quando se entra nesse processo descontrolado, abandonam-se os princípios sobre os quais a entidade foi constituída.
A busca pelo crescimento exagerado é o segundo estágio que antecede a derrocada, seja de uma organização secular ou de um ministério cristão. Muitos líderes tornam-se cegos pelo êxtase do expansionismo. Constantemente surge uma necessidade em tais líderes de mostrarem-se capazes, e eles não conhecem outra forma de fazer isso que não seja tornando seus empreendimentos maiores, independente das consequências.

É a incessante idéia de que tudo tem que crescer e crescer. Todavia, impressiona o fato de que acobrança de Jesus aos seus discípulos estivesse relacionada à necessidade de fazer novos discípulos, e não de construir grandes organizações. Ele parecia saber que discípulos bem treinados em cada cidade e povoado dariam conta de conduzir o movimento cristão de forma saudável. Talvez Jesus temesse exatamente o que está acontecendo hoje: a sistematização do movimento cristão, sua centralização e expansão tão somente para causar uma impressão.

O terceiro estágio de declínio identificado por Collins é desencadeado quando líderes e organizações ignoram ou minimizam informações críticas, ou se recusam a escutar aquilo que não lhes interessa. A negação dos riscos é um perigo iminente – e riscos não levados a sério são justamente aqueles que, posteriormente, causam grandes estragos na organização. É preocupante, para Collins, quando organizações que baseiam suas decisões em informações inadequadas. Em meu ministério de liderança, cedo aprendi a temer conselhos que começam com expressões como “Estão dizendo” ou “O pessoal está sentindo”. Prefiro valorizar dados precisos, vindas de pessoas confiáveis, sábias, que se engajam na tarefa de liderar a comunidade com sensatez. Isso nos possibilitou caminhar ao lado de gente que jamais imaginávamos que caminharia conosco. Nada me foi mais valioso do que receber, delas, informações que me ajudaram a conduzir minha congregação.

O estágio quarto começa, escreve Jim Collins, “quando uma organização reage a um problema usando artifícios que não são os melhores". Ele dá como exemplo uma grande aposta em um produto não consolidado, o lançamento de uma imagem nova no mercado, a contratação de consultores que prometem sucesso ou a busca de um novo herói – como o político que vai salvar a pátria ou o executivo que em três meses vai tirar a empresa do buraco. Eu me lembro de épocas nas quais eu estava desesperado por vitórias que fariam com que minha igreja deixasse de caminhar na direção em que estava caminhando – para o abismo. Ao invés de examinar o que nossa congregação fazia nas práticas essenciais de serviço ao povo, centrada no serviço a Cristo, fui tentado a me concentrar em questões secundárias: cultos esporádicos de avivamento, programações especiais, qualificação de nossa equipe de funcionários. Hoje eu vejo o que tentei fazer: promover salvação de vidas através de publicidade, uma grande apresentação o um excelente programa. Graças a Deus, aprendi – assim como aqueles ao meu redor – que artifícios assim não funcionam. O que funciona é investir em pessoas, discipulá-las, conduzi-las a Jesus e adorá-lo em espírito e em verdade, fazendo com que as coisas estejam em seu devido lugar.

Collins menciona ainda o estágio cinco da decadência, que é o da rendição. Se as coisas saem do eixo organizações como igrejas tendem a perder a fé e o espírito. Penso que o templo em Jerusalém deve ter ficado dessa forma quando Jesus se retirou de lá e disse que não voltaria àquele lugar. Ele estava antecipando o dia, que estava por vir, quando não restaria pedra sobre pedra ali. Não muito tempo atrás, eu estava em frente ao templo de uma igreja no País de Gales. Na porta, estava a seguinte placa: "Vende-se". Uma outra placa indicava que aquele prédio havia sido construído no período do grande avivamento britânico, no século 18. Agora, o prédio estava escondido entre a vegetação, completamente abandonado.

Quando começa a morte de uma organização? Quem perdeu os sinais que indicam vida? Quem abandonou os princípios essenciais? Quem não entendeu as informações? Quem está correndo, completamente perdido no meio da multidão, sem saber pra onde ir? Essas são boas perguntas. Se ignoradas, a igreja cairá.
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sábado, 23 de outubro de 2010

Teologando com duas teologias

José Geraldo Magalhães Júnior

Essa reflexão pessoal tem como objetivo destacar as duas linhas teológicas: a teologia da libertação e a teologia integral. Primeiramente precisamos entender que a teologia estuda o discurso, a imagem sobre Deus, pois ela não pode discutir Deus porque quando se discute sobre Deus, obviamente está discutindo sobre algo e, se transformarmos Deus em algo, isto é idolatria. Portanto, a maioria das teologias cai na idolatria.

Para entender a teologia é preciso de três elementos: a revelação, fé e razão. A teologia nasce de uma prática concreta de fé. Isso é Teologia da Libertação. Para se entender essa teologia, é preciso enxergar, refletir e agir (VER, JULGAR e AGIR); é uma prática da vida real das pessoas. Não se desenvolve ou se faz teologia desconectado da vida real. Em outras palavras o teólogo tem que ter experiência e não discurso.

A Teologia da Missão Integral é a comunicação e presença do Evangelho. Queremos dizer com isso que, essa teologia correlaciona comunicação e presença, sem colocar um sinal de igualdade entre essas realidades. A comunicação na Teologia da Missão Integral, tem seus desdobramentos sociais porque convoca as pessoas e comunidades ao arrependimento e ao amor pelos outros em todas as áreas da vida, além de ver o compromisso social como comunicação e presença, ela é a proclamação da boa nova que se dá por meio do testemunho da graça de Deus.

Um de seus pilares é a diaconia, que em seu sentido cristão significa serviço ao próximo. Diante da alegria pelo que Deus tem feito, ao abençoar as vidas, a Missão Integral propõe como resposta a promoção da diaconia. Nesse sentido, Missão Integral e diaconia são expressões que não podem vir separadas.

Percebemos a diaconia nas primeiras comunidades cristãs, que reflete os testemunhos de fé por meio da vida solidária (At 2.44-45; 4.32-35), já que, como disse Paulo, "se um membro sofre todos sofrem com ele" (1Co 12.26). O fundamento dessa ação solidária repousa nos ensinos e prática de Jesus Cristo. Por isso, para a Missão Integral, o amor a Deus só é possível se este alcança o próximo (1Jo 4.20).

Na prática, amar ao próximo consiste em propiciar dignidade humana e reintegração na sociedade (Mt. 9.35ss). Por seu ministério e morte, Cristo assumiu a fraqueza humana e sofreu o poder de morte do mundo para, então, superá-los. Assim, a Teologia da Missão Integral desafia ao testemunho do amor de Deus, enquanto ação solidária.

Essas duas linhas teológicas nos ajudam a refletir sobre as realidades das igrejas locais que padecem por uma falta de originalidade e criatividade. Para se trabalhar e desenvolver propostas reais na comunidade, o pesquisador Richard Niebuhr detaca:

Ser responsável é ser capaz e ser requerido a prestar contas de alguma coisa a alguém. A idéia de responsabilidade, com a liberdade e a obrigação que ela implica, tem seu lugar no contexto das relações sociais. Ser responsável é ser um ser na presença de outros seres, em quem se está vinculado e para quem se é capaz de responder livremente; responsabilidade inclui serviço ou cuidado com as coisas que pertencem à vida comum dos seres.

O homem terá de prestar contas a Deus, tanto das coisas boas como das más (Rm 14.12). Por essa razão, é necessário incluir nos membros das igrejas a mentalidade que a igreja é responsável. Segundo o pensamento de Niebuhr a comunidade universal tem membros, e a igreja universal está dentro dessa comunidade que deve prestar contas a Deus. A igreja só é igreja porque é de Cristo. Niebuhr aponta os três tipos de igrejas: Mundana, Isolada e Apostólica ou Pioneira.

Desta descrição geral da responsabilidade da Igreja nós nos movemos agora para a consideração de sua prestação de contas da sociedade. A natureza da última deve ser iluminada para nós de alguma forma se nós consideramos, antes de tudo, os caminhos nos quais a Igreja tem sido e pode ser socialmente irresponsável. Dois tipos de tentações parecem prevalecer especialmente na história: a tentação do mundanismo e a do isolacionismo.

As igrejas Mundanas e Isoladas são aquelas que o autor as chama de irresponsáveis, que se isolam em seus mundos sem prestar contas à sociedade. A mundana é calada, muda e recebe benefícios para si próprios. O que ele chama de igreja responsável é a Apóstola, Pastora e Pioneira. Porque apóstola é enviada a falar a pessoas e grupos. Já pioneira é aquela que vai à frente mostrando ao mundo as coisas a cerca de Deus. E Pastora é a que vê e cuida dos sofrimentos da sociedade. Esse seria um modelo adequado de igreja na sociedade.

Não podemos distorcer ou interpretar a missão da Igreja. Padilla trata questões em O Que É Missão Integral? Sobre o Evangelho de Jesus Cristo como sendo uma mensagem pessoal e, ao mesmo tempo, um Deus que se revela a cada indivíduo chamando-os pelo nome e um Deus com um propósito de abarcar todo o mundo. Existe uma falta de valorização das dimensões mais amplas do evangelho o que, de certa forma, tem gerado uma distorção da missão da igreja. O autor defende que “a obra de Deus em Cristo Jesus tem a ver diretamente com o mundo em sua totalidade, não meramente com indivíduo”.

Acreditamos que a ação social é o caminho e, o propósito da evangelização é conduzir o homem a uma reorientação de sua vida. E a salvação não é exclusivamente o perdão dos pecados, mas a transferência do domínio das trevas à esfera onde Jesus é reconhecido como Kyrios (Senhor) de todo o universo.

Temos percebido que essas atividades têm motivado os membros com atitudes concretas, pois não estamos indo à igreja somente para adorar a Deus, mas para promover a vida aqueles e aquelas que não tinham esperança. Isso é fazer teologia!


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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Religião: chave para dialogar com o povo - Frei Betto

Uma das principais referências da teologia da libertação no Brasil e com larga trajetória de lutador social ocupa lugar privilegiado para versar sobre o tema. Não por acaso, seu livro "Fidel e a Religião" (1986) teve importante papel, segundo próprio bispo cubano, para "tirar o medo dos cristãos e o preconceito dos comunistas". Indubitavelmente, a reconciliação entre a Igreja Católica e o governo revolucionário cubano deve algo a Frei Betto.

No Brasil, militante dominicano desde sua juventude na época da ditadura (1964-1985), contribuiu para a realização de acontecimentos históricos. Entre eles a fundação do Partido dos Trabalhadores, o PT, governo do qual chegou a formar parte em seu início com a eleição de Lula a presidência da república, em 2002.

Política, religião e comunicação. Na entrevista que segue Frei Betto, recorre a esses três pilares para nos deixar sua impressão sobre o atual momento político por que passa a América Latina.

- Como frei dominicano e militante junto às bases populares na época da ditadura brasileira, como avalia a importância da Igreja Católica para as lutas sociais na América Latina, especialmente no combate às ditaduras que assolaram a região durante a década de 60? De lá para cá, mudou o perfil da atuação social da Igreja?

- Nos anos 1960 e 1980 a Igreja Católica, renovada pelo Concílio Vaticano II e pela conferência episcopal latino-americana em Medellín (1968), teve papel preponderante nas lutas sociais na América Latina. Através das Comunidades Eclesiais de Base e do advento da Teologia da Libertação, decorrentes da "opção pelos pobres", muitos militantes foram formados pela Igreja segundo o método Paulo Freire. Em países sob ditadura, como Brasil e Nicarágua, essa formação resultou em opção revolucionária. Diria que, de certo modo, as eleições recentes de Lula, Correa, Evo, Funes e outros têm a ver com esse processo pastoral. Com o pontificado de João Paulo II e a queda do Muro de Berlim, iniciou-se a "vaticanização" da Igreja latino-americana. A Teologia da Libertação foi censurada; os bispos progressistas afastados; padres conservadores nomeados bispos etc. Hoje a Igreja Católica, embora abrigando grupos progressistas comprometidos com as causas populares, reflui na opção pelos pobres e busca situar-se numa suposta neutralidade frente aos conflitos sociais.

- Qual a ponte entre o cristianismo e a luta armada?
- Hoje, na América Latina, a luta armada só interessa a dois setores: fabricantes de armas e extrema direita. Governos como Lula, Chavez, Mujica etc demonstram ser possível realizar reformas estruturais pelas vias pacífica e democrática. Porém, a questão da relação cristianismo e luta armada está, em tese, equacionada desde o século XIII por meu confrade Tomás de Aquino. Em caso de opressão prolongada e sem outro recurso para se evitar um mal maior fora da resistência armada, então esta é justa e legítima. Nos anos 1960 e 80 isso se aplicava a países da América Latina sob ditaduras, o que explica os testemunhos de Frei Tito de Alencar Lima, Camilo Torres e tantos outros cristãos que participaram da luta armada. Esse mesmo princípio tomista levou João Paulo II a comemorar os 50 anos da vitória da resistência europeia contra o nazifascismo. E, como sabemos, a resistência atuou com armas.

- As lutas sociais latino-americanas incorporaram símbolos e princípios do catolicismo (como a Nossa Senhora de Guadalupe no México, as místicas do MST, etc.). É possível falar em alguma luta que seja genuinamente popular na América latina e que desconsidere a força do catolicismo e da religião?

- Que eu saiba não há nenhuma força política progressista na América Latina que apregoe o ateísmo e seja anti-religiosa. Desde que Fidel acentuou, na entrevista que lhe fiz em 1985 (livro "Fidel e a Religião") a importância da religião como fator de libertação, o preconceito praticamente terminou. Jamais haverá participação popular nos processos políticos latino-americanos sem incorporar a religiosidade do povo. Aqui a porta da razão é o coração e a chave do coração é a religião.

- Considerando essas questões, como interpretar o caso da revolução cubana? Como avalia a situação por que passa o país hoje?

- A Revolução cubana incorporou os valores religiosos do povo, tanto que teve líderes assumidamente cristãos, como Frank Pais e José Antonio Echeverría, bem como capelão, o padre Guillermo Sardiñas, que após a vitória mereceu o título de Comandante da Revolução. Hoje Cuba passa por um período de excelentes relações entre Igreja e Estado, a ponto deste permitir que a Igreja Católica faça a mediação que possibilita a libertação de presos de consciência.

- Que papel os movimentos sociais desempenham hoje na política latinoamericana? No Brasil, pode-se dizer que foram a maior herança de resistência e organização da época da ditadura?

- Sem os movimentos sociais a América Latina não estaria vivendo essa primavera democrática representada por Lula, Chávez, Funes, Mujica, Evo, Correa, Lugo etc. No entanto, ocorre hoje um refluxo dos movimentos sociais, muitas vezes porque suas lideranças foram cooptadas para aqueles governos. A queda do Muro de Berlim, a influência do neoliberalismo e das novas tecnologias, o advento da pós-modernidade, são alguns dos fatores que explicam a desmobilização dos movimentos sociais, embora alguns permaneçam ativos, como o movimento indígena e, no caso do Brasil, o MST. O movimento indígena, graças à eleição de Evo Morales, o primeiro indígena presidente, ganha autoestima e, devido ao tema ambiental estar em pauta, também relevância, sobretudo na proposta do BEM VIVER, nos ensinando que devemos aprender a considerar o necessário como suficiente.


- Quanto aos governos com origem na esquerda partidária e nos movimentos sociais que vêm se consolidando no cenário latinoamericano, é possível classificá-los como governos de esquerda?

- Não, são governos progressistas e, alguns, como é o caso da Venezuela, até explicitam o socialismo como projeto político. Mas também estão longe de serem governos de direita ou conservadores. Dentro de possibilidades reais, e não ideais, atuam em favor dos mais pobres e, sobretudo, desarticulam o poder político das oligarquias tradicionais, embora elas prossigam com muito poder econômico.

- Tendo acompanhado o partido e colaborado com o PT desde sua fundação, como o senhor avalia os 8 anos de governo Lula em relação à proposta inicial do partido? Como o senhor define sua relação atualmente com o PT e com Lula?

- Lula fez o melhor governo de toda a história republicana do Brasil. Permitiu que 19 milhões de pessoas saíssem da miséria. Estabilizou a economia. Mas não fez nenhum reforma estrutural e nem qualificou a saúde e a educação. Escrevi dois livros de avaliação do governo Lula: A MOSCA AZUL e CALENDÁRIO DO PODER (editora Rocco). Apesar das limitações, penso que é importante dar continuidade do governo do PT.

- Como jornalista e escritor, qual o papel da comunicação para a transformação social? A comunicação ainda é o Quarto Poder? Como enfrentar esse poder?

- A comunicação não é mais o quarto poder, é o primeiro. Vide o papel do marketing eleitoral nas campanhas políticas. Ocorre que os grandes veículos de comunicação se encontram em mãos da elite conservadora. Um dos desafios a serem enfrentados pelos setores progressistas é o de encontrar alternativas à comunicação controlada pelos monopólios poderosos.

- Esteve preso por 4 anos. Como essa experiência interferiu na sua vontade de lutar contra a ditadura e as injustiças sociais?

- Ao contrário, foi a minha militância por justiça social e contra a ditadura que me levou à prisão. Esta apenas reforçou minha decisão de estar sempre ao lado dos oprimidos, ainda que aparentemente eles não tenham razão.

- O senhor já escreveu mais de 50 livros, em quantas línguas já foi traduzido? Qual dos seus livros recomenda para nossos leitores que queiram conhecer melhor o Frei Betto?

- Minhas obras já foram traduzidas em 32 idiomas e 23 países. Para o leitor latinoamericano sugiro obras em espanhol editadas em Cuba: Fidel y la religión; La obra del artista - una visión holística del Universo; Un hambre llamado Jesús (novela). E deve sair em breve La mosca azul.

(Publicado em Brasil de Fato, Edição 394 - de 16 a 22 de setembro 2010)
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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O "Sim" de Deus

Por José Geraldo Magalhães Jr.

Ontem, 21, aconteceu no Espaço Metodista 24h, o culto Evangelístico com a participação de membros de várias Igrejas. Na ocasião, evangelistas, pastores e pastoras realizaram às 15h, nas proximidades da Rua Major Diogo, o evangelismo pessoal convidando pessoas para o culto da noite às 19h30. A mensagem com o Dr. Eddie Fox (na foto acima a direita, e o intérprete, Dr. L. Wesley de Souza à esquerda) impactou várias pessoas que visitaram e decidiram entregar suas vidas à Jesus.

Fox leu o texto de II Co 1.18-22 e enfatizou em sua mensagem que “em Cristo Jesus, todas as promessas de Deus tem um sim anexado. Eu não prego para uma decisão, Deus é quem decidiu e a resposta é sim. Não votamos isso nos Concílios Gerais, essa parte não é negociável”. Com seu jeito bem humorado, Fox contou a seguinte parábola: “Três caipiras iam para um Seminário e quando chegaram ao hotel não tinham suas reservas. Mas como? Eles pagaram antecipado e não realizaram suas reservas? Eles falaram, então, com o gerente do hotel. A organização do seminário chegou seguinte conclusão: ‘vamos colocar esses três caipiras na Suíte Presidencial’, que ficava no 50º andar. Na suíte eles encontraram, TV’s grandes, lustres, comida de toda qualidade, banheiros com hidromassagem... Não conformados, eles ligaram para as esposas e disseram: ‘nós estamos bem. Estamos na Suíte Presidencial’.

Depois que ligaram para as esposas, eles resolveram sair para dançar e se divertirem na noite. Ao retornarem ao hotel, o porteiro disse aos caipiras: ‘Não tenho uma notícia muito boa para dar a vocês. O elevador quebrou, mas tenho duas opções: ou vocês podem dormir aqui na recepção ou terão que ir pelas escadas mesmo’. Eles olharam um para o outro e disseram juntos: ‘pelas escadas’.

Um deles teve uma brilhante idéia: o primeiro iria contar piadas até o 17º andar; o segundo iria contar histórias de horror do 18º até o 34º andar e, por fim, o terceiro iria contar histórias tristes até o 50º. Tudo estava indo bem! Eles riram bastante até o 17º, sentiram medo até o 34º e também ficaram tristes, mas quando estavam no último andar, o terceiro caipira disse: ‘para terminar vou contar essa última que é pequenininha, mas é boa... ESQUECI A CHAVE LÁ EM BAIXO’”.

Fox, além de arrancar risos dos congressistas, enfatizou que “a chave tem nome e é Emanuel, Messias, Jesus e Senhor. A história mais triste hoje em São Paulo é ter esquecido a chave quando as pessoas vão para suas casas. As pessoas gostam da graça, mas não gostam da verdade. Em Cristo Jesus todas as promessas de Deus têm um sim. A última promessa de Jesus feita aos discípulos foi pedir que eles voltassem para Jerusalém e aguardassem a descida do Espírito Santo”. E completou: “Se a Igreja Metodista no Brasil é viva, ela precisa estar aberta para o poder e unção do Espírito Santo de Deus. Sem unção não há testemunho e conversão”.

O Dr. Fox também compartilhou sua experiência vivenciada em Cuba, pois a Igreja Metodista se multiplicou em apenas 10 anos. O governo cubano não queria que os metodistas construíssem templos. “Então a solução foi construir casas para os irmãos se reunirem. Eles tem 900 casas que são utilizadas para as reuniões e cultos”. Certo pastor, também telefonou para Fox solicitando ajuda para comprar bicicletas para os pastores usarem em suas visitas pastorais. “Consegui 500 bicicletas e a maioria delas foi doada às crianças. Fui, então, convidado para ir à Cuba no Natal para dedicar as bicicletas. Primeiro demos um nome: evangebyke. Tive que procurar muito para encontrar um texto bíblico que falasse de bicicletas. Meu texto foi o de Ezequiel: ‘O Espírito está nas rodas’”, disse arrancando risos da plenária. Segundo Fox, essa história também foi contada na BBC de Londres. Ele conta que “o Espírito esta nas rodas, mas também nos pastores e pastoras, nos leigos e leigas e por isso eu oro para que o Espírito de Deus habite em você” finalizou.
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domingo, 4 de julho de 2010

Estresse no ministério pastoral. Como evitar?

Quem nunca teve um dia de estresse no trabalho? Quando este tema vira rotina e os sintomas se tornam crônicos é preciso ficar em alerta. Quando o assunto é o estresse em clérigos(as) é mais grave ainda porque estes se sentem responsáveis por uma gama de atividades e funções. Quando não dá para desempenhar todas as funções, automaticamente surge a cobrança pessoal. Se o trabalho se transforma em um tormento, você pode estar sofrendo a Síndrome de Burnout, um distúrbio psíquico causado por esgotamento físico e mental intenso associado ao trabalho. Isso sugere que quem tem esse tipo de estresse sente-se consumido física e emocionalmente, e começa a apresentar comportamento agressivo e irritado.
A matéria que você está lendo se refere ao estresse na vida dos clérigos(as). Para tal, a redação do Expositor procurou o psicólogo e pastor, Cesar Roberto Pinheiro que fez seu mestrado na PUC – Campinas. O pastor Cesar entrevistou 74 pastores(as) da 3ª Região Eclesiástica para chegar aos dados precisos do nível de estresse em clérigos(as) metodistas. O resultado do nível de estresse das pessoas pesquisadas foi maior, percentualmente, que o nível da população de São Paulo, ou seja, 50 por cento para os pastores(as) e 35 por cento para São Paulo. Isso é preocupante! Também procuramos o pastor e psicólogo, Josias Pereira, que tem uma ampla experiência em psicologia clínica e pastoral e, por fim, o ex-professor titular da faculdade de teologia e pastor aposentado, Rev. Ronaldo Sathler Rosa, por agregar uma larga experiência na área do cuidado pastoral.
Na pesquisa realizada pelo pastor Cesar, ele identifica que os pastores em geral têm uma grande dificuldade para lidar com esse tipo de tensão, pois o trabalho pastoral “constituiui-se em um dos mais polêmicos da sociedade, exigindo um conjunto de qualidades e responsabilidades às vezes, muito acima do que é exigido em outras profissões como, por exemplo: integridade ética e moral; equilíbrio emocional em todos os momentos; conduta exemplar; conhecimento em diversas áreas (musical, administrativa, legal, relacional); dedicação exclusiva; proximidade relacional (costuma-se dizer no meio eclesial metodista que ‘o pastor/a precisa ser um amigo/a’); saúde física plena (‘o/a pastor/a não pode ficar doente’); e senso de empatia”.
O serviço pastoral, então, gera estresse? Ao citar alguns pesquisadores da área do estresse ocupacional, Cesar Pinheiro, afirma que “qualquer tipo de trabalho possui agentes potencialmente estressores para o indivíduo”. Nesse sentido, “o trabalho pastoral também está sujeito ao estresse. Os dados obtidos indicam que 50 por cento da população pastoral metodista [dentre 74 clérigos(as) entrevistadas], tende a estressar-se no exercício do ministério. Este percentual obtido é sobremaneira elevado, considerando-se dados de pesquisas recentes sobre o tema. De acordo com o estudo realizado pela Dra. Marilda Lipp, do Laboratório de Estudos Psicofisiológicos de Stress, da PUC-Campinas, a média do nível de stress na cidade de São Paulo é de 35 por cento. Logo a presença de estresse na amostra pesquisada encontra-se significativamente acima da média da população geral de São Paulo, e isto é muito preocupante”. Vale ressaltar, também, a orientação do psicólogo Josias Pereira: “uma pessoa estressada afeta as outras com as quais convive dispersando o seu mal estar entre os demais, pois o relacionamento inter e intrapessoal é altamente afetado”, portanto, o estresse pode interferir no lar.

Período mais estressante
Para Cesar o período mais estressante no ministério está entre os primeiros cinco anos. Ele afirma: “De acordo com minha pesquisa, os primeiros 5 anos do ministério pastoral tendem a ser os mais estressantes. Dentre a amostra estudada, 50 por cento relatou que os primeiros cinco anos foram os mais estressantes no ministério pastoral. Cabe destacarmos ainda que a parte do grupo (17 por cento) referiu o período entre 6 e 10 anos como o mais estressante do seu ministério”. Para Josias Pereira, sua experiência pastoral e psicológica indica que não é somente no início do ministério que o estresse atinge o pastor(a), mas também quando se aproxima da aposentadoria: “a rigor não podemos definir no início do ministério, pois tudo depende muito das condições pessoais e circunstanciais, bem como das contingências. No entanto, a experiência indica que é mais provável nos primeiros anos de ministério e nas proximidades da aposentadoria, talvez pela insegurança do porvir, que também se apresentam com freqüência em outras atividades”, e acrescenta: “quanto maior convicção do chamado divino, menor é o risco de estresses, pois o principal fator determinante são os conflitos de valores, embora esteja sempre inconsciente, pois quando conscientizados os sintomas podem a ser resolvidos”.
Também nesse sentido é reveladora a pesquisa de Roseli Margareta K. de Oliveira que aponta em sua dissertação de mestrado, numa pesquisa envolvendo 38 pastores da Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil (IECLB) que, o nível de estresse está presente nos primeiros cinco anos do ministério, inclusive alguns dos pastores entrevistados pela pesquisadora, já se encontram com a síndrome de Burnout, ou como define o psicólogo Josias Pereira, “o esgotamento nervoso”. Se você é uma pessoa extremamente exigente e perfeccionista e que não mede esforços para atingir bons resultados, é preciso tomar cuidado, pois essas pessoas são as mais vulneráveis à síndrome.

Sintomas com maior frequência
Os sintomas mais presentes de acordo com Cesar Pinheiro são definidos da seguinte forma: “sintomas físicos, por exemplo, dores de cabeça, boca seca, tensão muscular entre outras; sintomas psicológicos: ansiedade, vontade de fugir de tudo, hipersensibilidade emotiva...; sintomas físico-psicológicos (quando os anteriores estão presentes). Desta forma ao verificarmos a prevalência de sintomas, descobrimos que 48,65 por cento do grupo com estresse, apresentou sintomas psicológicos (com predominância entre as mulheres), 37,84 por cento, sintomas físicos e 13,51 por cento, estavam entre aqueles com ambos os sintomas. Um detalhe significativo é que, dentre as mulheres participantes da pesquisa, o segmento das clérigas casadas revelou maior índice de estresse (78,5 por cento) em relação às clérigas solteiras (45,45 por cento)”.
Para Josias Pereira pode-se considerar “os sintomas em função de suas conseqüências, isto é, há manifestações somáticas que são graves, porém, não apresentam urgência, pois suas conseqüências ocorrem a longo prazo, tais como fenômenos digestivos ou dermatológicos e outros tantos. Já as agudas são as crises circulatórias ou cardíacas, são os casos de AVC’s (acidente vascular cerebral, isto é, derrame cerebral ou infarto cerebral) que exigem atendimento com muita urgência, pois qualquer demora pode ser fatal”. Entretanto, ressalta o pastor, “é bom saber que para todos estes casos a prevenção ainda é o melhor remédio”.

Principais estressores ocupacionais em clérigos(as)
A pesquisa realizada pelo psicólogo Cesar Pinheiro revela dados surpreendentes, pois os maiores estressores em clérigos(as), os três mais importantes foram: “preocupação com a educação dos filhos frente às mudanças de residência; ter que sujeitar ao processo de nomeação pastoral e, por fim, ter que negociar os subsídios pastorais com a administração da Igreja”. Além do mais, as mulheres casadas tiveram um maior índice de estresse, possivelmente, “por estar relacionada aos múltiplos papéis sociais que elas precisam assumir, principalmente com respeito à vida pessoal”, conclui Cesar.
Acúmulo de funções também pode ser uma fonte de estresse, pois mesmo que a pessoa dê conta de realizar os trabalhos que lhe são designados, “quando ele não é reconhecido, a satisfação acaba se transformando em compulsão. Isso leva ao esgotamento, depressão ou transtornos ansiosos", como define a psicóloga Fernanda Elpes Nakao em uma entrevista na Revista Vida e Saúde em setembro de 2009.

Dicas de como prevenir o estresse
Existem meios de prevenir o estresse? O pesquisador Cesar Pinheiro dá algumas dicas: “É preciso considerar alguns aspectos importantes no controle e prevenção do estresse: alimentação, descanso, exercícios físicos, apoio psicológico e o cuidado pastoral”. Cesar afirma, ainda, que “a fé é um aliado poderoso no processo de enfrentamento do stress”.
O professor Ronaldo Sathler Rosa afirma que “a prática rotineira de atividades físicas, devidamente orientadas e ajustadas à condição particular de cada um, é fator positivo para a eliminação de cansaços desproporcionais e para o equilíbrio da personalidade. A vida sedentária atinge, obviamente, o humor, a vitalidade, e pode comprometer o exercício prudente e responsivo do ministério pastoral”. O professor lembra ainda que “em nossa cultura brasileira os homens, em geral, não dão muita importância ao aspecto preventivo para o seu próprio bem-estar integral. O ‘cuidar de si’, tanto corretiva como preventivamente, é condição para ‘cuidar de outrem’ por meio do cuidado pastoral”.
Sathler conclui que outro fator que contribui para que não se dê maior atenção à saúde entre pastores, “é a ausência de uma Teologia da Saúde: a saúde considerada como inserida na mensagem cristã da salvação. Não se restringe, portanto, às curas das patologias individuais e da sociedade. A mensagem da salvação visa à criação de novo modo de vida, de renovação da mente, de novas atitudes em linha com os ensinamentos das Escrituras. Uma causa provável da pouca atenção da teologia sobre a saúde, deve-se à ênfase unilateral na ‘união da alma com Deus’. O corpo, é, então, ignorado. Sofre a alma com o corpo danificado; sofre o corpo com a alma ferida!”.

Algumas regrinhas básicas para evitar o estresse:
Peça ajuda para resolver os problemas; fragilidades? Não tenha medo ou receio de expô-las; repense se você é uma pessoa perfeccionista. Ninguém consegue ser perfeito em tudo e controlar todas as situações; jamais se sobrecarregue, delegue funções; mantenha organizada sua rotina de trabalho, como por exemplo, horários para ler e responder e-mail’s, estudo, visitação, separe a sua folga pastoral para a família; desfrute do lazer, atividade física e vida social. Enfim, a vida de qualquer pessoa, independente de ser clérigo(a) ou não, precisa de um equilíbrio entre o prazer e as obrigações. Essa seria, em nossa conclusão, o segredo para uma vida saudável, tanto pastoralmente profissional como pessoal.

Pr. José Geraldo Magalhães Jr.

Publicada em Expositor Cristão / Julho 2010 p. 8 e 9.
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quarta-feira, 28 de abril de 2010

Sacramentos como Graça de Deus

Batismo recepção de novos membros na comunhão da Igreja

Depende unicamente da graça de Deus para que os homens encontrem o caminho da fé e para a comunidade cristã, a graça que antecede a toda ação humana e cria a possibilidade de receber a salvação. Essa salvação que está fundamentada na reconciliação em Cristo (2 Co 5.19-21) – e que liberta das cargas e cura das feridas do pecado pelo qual o homem foi afastado da comunhão com Deus – é oferecida a todos os homens no anúncio do Evangelho e apropriada pessoalmente no Batismo, pelo qual o homem é recebido na comunhão da nova vida com Deus, se exprime o aspecto objetivo e visível do evento da salvação. O fim do Batismo que a Igreja realiza por incumbência de Cristo, é tornar visível a justificação e aceitação dos que estavam separados de Deus, o que só se realiza pela graça. Deus que nos deu a vida terrena, quer dar-nos também a vida eterna, na aquisição da qual nossos próprios esforços não são necessários, nem teriam qualquer sentido. No Batismo o homem pecador é entregue como propriedade a Cristo crucificado e ressurreto e uma nova vida lhe é conferida pelo poder de Cristo e de seu Espírito.

Tal como a Ceia, o Batismo é “palavra visível de Deus”, sinal válido, instituído por Cristo, da nova comunhão, em que ele recebe os batizados. A esta recepção deve corresponder o sim da fé nos batizados, pelo qual se recebe a salvação de Deus. Batismo, fé e comunidade pertencem, portanto, objetivamente, um ao outro; nenhum dos três pode existir dentro da compreensão da tradição neo-testamentária, sem os dois outros.

O Batismo é “penhor e sinal eficaz de que a ação salvadora de Deus se aplica pessoalmente ao batizado”. Alem disso, ele deve ser respondido com o sim da fé do homem, o qual assim faz valer livremente para si o que Deus fez em seu favor. Assim ele afirma, ao mesmo tempo, a sua nova identidade de filho de Deus, que lhe foi conferida no Batismo. Juntamente com os nomes do Deus trino, é pronunciado o nome do batizando, com o que fica claro que pertence a Deus, que em sua fidelidade vai atrás do homem, e com amor paciente espera ser correspondido neste seu amor.

Na tradição metodista, neste conceito é vista a aliança de Deus que coloca o fundamento de uma comunhão renovada entre Deus e homens, tanto na aliança antiga com Israel como na aliança nova para todos os povos. O Batismo é o sinal dessa nova aliança da graça de Deus, da qual não são excluídas nem mesmo as crianças.

Já em seu tratado “Sobre Batismo”, Wesley chamara de “entrada da aliança de Deus” um dos efeitos do Batismo; mais tarde, em conexão com o “culto de renovação da aliança”, esta relação foi intensificada. Neste sentido, o culto (de renovação da aliança) com a Santa Ceia é entendido como certificação da graça do Batismo e como um novo compromisso de viver para Cristo e não para si mesmo.

O culto de renovação da aliança com Deus é para a atualização da palavra salvífica de Deus recebida no Batismo (das crianças) e para a renovação das promessas do Batismo, e ainda para a satisfação da necessidade dos cristãos, que receberam o Batismo infantil, de experimentarem a grande alegria nesta, como que, repetição do Batismo, pois aí se trata da integração, vivida pessoalmente, na salvação; tudo confessado publicamente numa reunião festiva da comunidade. Tal cerimônia é ainda hoje em dia, frutuosamente celebrada nas igrejas metodistas, e chamada de “renovação da aliança batismal” durante a qual jovens e adultos são batizados e recebidos na Igreja. Com isso se cria um remédio contra o perigo da desvalorização do Batismo, que surge na praxe batismal pouco diferenciada – o que, aliás freqüentemente é aduzido para um argumento de um segundo Batismo. Quando Batismo e fé, bem como a integração compromissada na comunidade, são tomados a sério – então o Batismo deixará de ser algo que não tem referência ao compromisso da fé.

Embora o Batismo faça parte da recepção na Igreja, não o consideramos necessário para a salvação. Quanto ao valor de salvação, atribuído a ele pela Palavra de Deus, este não depende de uma “correta” doutrina da fé, nem de determinadas concepções doutrinárias ou dogmáticas (que frequentemente restringem a fé através de intelectualizações).

O fundamento decisivo da salvação é o amor incondicional de Deus, que no Batismo é atribuído a cada indivíduo e que o crente (mais tarde) aceita livremente, e assim reconhece a sua natureza de filho de Deus.

Baseados nessa compreensão do Batismo – apesar das duas práticas de Batismo infantil e Batismo de adultos – podemos falar de um só Batismo, pois “o que Deus faz no Batismo não só se torna válido, só posteriormente, pela fé subjetiva, nem recebe caráter daí de verdadeiro”. Por isso podemos concordar com a observação de F. Herzog: as crianças não pertencem à Igreja porque seus pais são membros da mesma; mas, certamente foi uma “intuição correta” da Igreja compreender que a renovação do homem não depende do fato de que alguém é dono de razão desenvolvida, ou de capacidade madura de raciocínio; não é preciso ser adulto para participar naquilo que acontece no Batismo.

“Decisiva para o Batismo de crianças é somente a certeza de que mesmo a palavra divina não entendida age sobre a consciência – sobretudo no âmbito da comunidade cristã”.

Foi de maneira muito feliz que teólogos e leigos metodistas da França – depois de muitas conversações e diálogos sobre concepções concorrentes de Batismo – assim formularam o sentido a ser dado tanto no Batismo de crianças como de adultos:

“É certo que a fé é sempre a resposta à ação salvadora de Deus; mas o momento da resposta da fé pode ser adiada. Os que foram batizados como crianças dão a resposta no momento em que o Espírito de Deus lhes abre os olhos e o coração à salvação, que já lhes foi oferecida. Também os batizados na idade adulta devem, segundo Romanos 6, ser sempre de novo exortados a darem a sua resposta de fé em obediência. Não é necessário que a fé primeiro crie as bases sobre as quais Deus possa atuar, porque o fundamento foi posto em Jesus Cristo, de uma vez para sempre. Visto sobre este fundo, também o Batismo de crianças é Batismo no sentido bíblico. É evidente que os seus efeitos devem ser recebidos sempre de novo na fé”.

Esta conexão característica e polar entre a palavra de salvação (no anúncio do Evangelho e no Batismo) e aceitação de salvação (na fé e na confissão pessoal dos batizados), também aparece na estrutura da Igreja Metodista: a recepção na Igreja pressupõe não só o Batismo mas também a profissão de fé – o Batismo como afirmação visível e válida do amor de Deus; a profissão como amor audível e pessoal da resposta de fé do homem.

“O Batismo – afirmamos juntos com as outras Igrejas – é o fundamento irrenunciável para se tornar membro da Igreja; é conferido uma só vez e para sempre, sem repetição, assim como Cristo morreu uma só vez, e para sempre”.

Quem foi batizado em criança e se decidiu pela confissão pessoal da fé, está apto para a recepção na comunidade dos crentes; quem, sem ter sido batizado, encontra o caminho para a fé em Cristo, receberá o santo Batismo, como primeiro passo para entrar na Igreja.

“Por isso, Batismo e recepção como membro da Igreja constituem basicamente um só evento, mesmo quando separados pelo tempo, como no caso do Batismo infantil. O Batismo não pode, por si só, ser considerado suficiente, mas em união com fé, vida e anúncio, na comunidade”.

O sim da fé encontra a sua expressão visível e constatável na solenidade da recepção como membro da Igreja. Quem encontrou a Deus e a si mesmo novamente, agora encontra nos outros cristãos a comunidade daqueles que estão unidos na caminhada para chegar à meta de suas vidas, isto é, a comunhão plena e perfeita com Deus.

A institucionalização da recepção de cristãos adultos na Igreja é um aspecto essencial com que se auto-define a Igreja Evangélico- Metodista. Base para essa recepção não é submeter a sua fé à prova –coisa impossível a homens – mas manifestar a aceitação da salvação, dada em Cristo de forma visível no Batismo e audível na confissão de fé, para que sua credibilidade seja testemunhada pela comunidade.

Os que foram recebidos como membros da Igreja se comprometem a levar uma vida sob a condução do Espírito de Deus e a participar na vida e no serviço da Igreja. Os outros membros da Igreja se comprometem a aceitar os recém-professos como irmãos e irmãs e levá-los “a experimentar o amor e o companheirismo cristão, em comunhão cordial”. Cada batizado é assim responsabilizado

“a reconhecer e atestar, por toda a sua vida, a salvação atribuída no Batismo, de amar a Deus e conduzir-se como quem pertence a Cristo e à sua Igreja”.

A conclusão, por um culto divino, do processo de educação religiosa de crianças da idade de 12-14 anos – freqüentemente chamado “consagração” – não deve ser identificada com recepção como membros da Igreja, pois se trata de dois processos diferentes, embora festejados solenemente. Entretanto, no mesmo culto divino podem ser “consagrados” jovens que terminaram sua instrução religiosa e outros, homens e mulheres, jovens ou adultos, podem ser recebidos como membros plenos da Igreja, ficando assim claro a todos os participantes que quem recebe o diploma da instrução religiosa não é por isso, ainda, recebido na Igreja. Neste culto fica igualmente evidente que a comunidade cumpriu a promessa, feita por ocasião do Batismo das crianças, de instruí-las na fé cristã. Ao mesmo tempo, a comunidade espera em oração pela decisão pessoal e se prontifica a oferecer a esses jovens, em seu meio, espaço para viver e se desenvolver, até pedirem a sua recepção como membros plenos e responsáveis, por decisão livre pessoal. Desta forma, ficam satisfeitos os dois lados da ação salvadora de Deus: o amor incondicional, que em Cristo reconcilia todo o mundo com Deus e oferece salvação a todos os homens, bem como a capacitação e a plena e livre escolha dos crentes para um sim próprio e pessoal, em que fazem valer para si o amor de Deus e a aceitação sua como filhos e filhas amadas.


Bibliografia:

KLAIBER, Walter e Manfred Marquardt. Viver a Graça de Deus: Um Compêndio de Teologia Metodista / Walter Klaiber e Manfred Marquardt; [Tradução: Helmuth Alfredo Simon]. São Bernardo do Campo, Editeo, 1999. pg. 353-357.
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