Mostrando postagens com marcador Estudos Bíblicos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Estudos Bíblicos. Mostrar todas as postagens

sábado, 10 de setembro de 2011

Uma interpretação exegética do Salmo 37

Entrega teu caminho ao Senhor...
O Salmo 37 tem sido usado para justificar a teoria da prosperidade. Segundo essa teoria, o justo, isto é, o crente fiel não passará fome. Eu já vi e ouvi pessoas abastadas justificarem suas recusas em ajudar o semelhante com este texto.

Será que este texto pode ser tomado para essa finalidade? Esta é uma questão importante para o testemunho da igreja. Vamos entender e interpretar o Salmo 37?




Eis que!
Javé apoiará sua mão.
Jovem já fui,
também envelheci;
mas não vi um justo ser abandonado,
e sua descendência procurar pão (Sl 37,25).

Vamos interpretar o verso 25.

(1) Não se pode isolar o verso 25 dos demais versos do Salmo 37.
(2) É preciso entender o momento de vida que o salmista passava ao compor esta poesia.
(3) Havia um conflito entre justos e injustos nos dias do salmista. Esse conflito trazia-lhe muita preocupação. Este assunto é muito comentado em outros textos:

... invejei os arrogantes, vendo a prosperidade dos malvados (Sl 73,3).

Por que prospera o caminho dos malvados?
Por que os apóstatas estão em paz? (Jr 12,1b).
Socorro, Javé! Não há mais homem fiel!
A lealdade desapareceu dentre os filhos de Adão (Sl 12,2).
O autor do Salmo 37 também estava preocupado com a aparente vida vitoriosa dos arrogantes, presunçosos e orgulhosos de sua condição social.

Não te irrites por causa dos maus,
Nem invejes os que praticam injustiça (Sl 37,1).

O conflito, que o salmista está descrevendo, tem dois grupos em duelo:

(1) De um lado, o salmista usa, doze vezes, um adjetivo para caracterizar o grupo adversário: raxa´, malfeitor. menciona (v. 1a e 9) a existência dos mere´im, imprestáveis, ruins, nocivos, perigosos, mesquinhos (da raiz ra´a´); ele também menciona a presença dos que ´asah ´awelah, os que fazem perversidade ou produzem o erro (v.b) e daquele que fabrica plano vil, mezimah (v. 7b).

(2) Do outro lado estão os sadikim, justos (v.12.16.25.29.32.39), o `ebion, empobrecido (v.14), o yaxar, correto, honesto (v.14. 37), os hasidim, bondosos, piedosos (v.28) e o tam, íntegro (v.37). O salmista descreve a ação dessas pessoas desta forma:

- confiam em Javé, fazem o bem e apascentam a fidelidade (v.3);
- depositam alegria em Javé (v.4);
- deleitam com paz abundante (v.11)
- recebem apoio de Javé (v.17);
- Javé conhece os dias dos íntegros (v.18);
- os justos não se envergonharão nos dias maus/fome, porque Javé os saciará (v.19);
- os justos se compadecem e dão (v. 20);
- Javé firma os passos do jovem geber (v.23);
- Javé sustenta os jovens pela mão (v.24);
- Javé não deixa sua descendência mendigar o pão (v.25);
- a descendência do jovem é uma bênção (v. 26);
- Javé dará habitação para sempre (v.27);
- Javé jamais abandona os seus fiéis (v. 28);
- os justos possuirão a terra e habitarão nela para sempre (v.29);
- a boca do justo medita sabedoria e fala o direito (v.30);
- o justo tem no coração a instrução e os seus passos nunca vacilam (v.31);
- há uma posteridade para o homem pacífico (v.37);
- a salvação e a fortaleza nos tempos de angústia vêm de Javé (v.39);
- Javé ajuda e liberta os justos (v.40).

Assim, a afirmação - não vi um justo ser abandonado, e sua descendência procurar pão (Sl 37,25) - tem que ser lida, entendida e interpretada à luz do sustento, apoio, cuidado e ajuda de Deus ao justo.

Conseqüentemente,

(a) ser justo não é um título conquistado através do cumprimento de certas formalidades;
(b) ser justo é conseqüência da prática de fé; não importa a riqueza ou a posição social.
(c) o justo não é abandonado ou mendiga pão por seus próprios méritos, mas porque Deus o sustenta.


Assim afirma Isaías:

Ele faz forte ao cansado,
E multiplica as forças ao que não tem nenhum vigor.
Os jovens sse cansam e se fatigam,
e os moços de exaustos caem,
mas os que esperam no Senhor renovam as suas forças,
sobem como águias,
correm e não se cansam,
caminham e não se fatigam (Is 40,29-31).

Colaboração das aulas de exegese na Faculdade de Teologia da Igreja Metodista co o professor, Dr. Tércio Siqueira.
Continue Reading...

Quatro diferentes reações para enfrentar situações na vida

Pensando no pouco que há / Traços de nanquim
I. A experiência na vida mostra que, ao enfrentar as aflições da vida, o ser humano tem, pelo menos, quatro diferentes reações:

Primeira reação:
Fugir e recusar-se a lutar pela superação dos problemas.

Contexto histórico: Por razões lingüísticas, provavelmente, o livro de Jonas foi escrito durante o período persa (século V ou IV a.C). Os que retornaram do exílio babilônico trouxeram uma boa experiência com os estrangeiros. Portanto, por que não falar, para eles, dos grandes atos de Deus? Entretanto, crescia, em Jerusalém, um grupo radical que insistia na identidade do povo da Aliança. Daí, a história de Jonas, o recalcitrante.

No AT, os relatos do chamado de Deus, para uma missão, mostram uma tendência repetitiva:

1. Deus chama;
2. A pessoa recusa aceitar a convocação;

3. Deus insiste no chamado;

4. A pessoa decide aceitar o chamado de Deus, e

5. Deus envia para uma missão a pessoa chamada.

Observação: O desafio dirigido a Jonas era anunciar a palavra de Deus aos ninivitas, porém ele fugiu, abandonando a missão.


Segunda reação:
Mentir com medo de ameaças.

Contexto histórico: Jesus encontrava-se no Sinédrio, o tribunal supremo do povo judeu (anciãos, sumos sacerdotes e escribas), com poderes para prender, contando com uma polícia própria. Havia uma tensão, dentro e fora do recinto, a espera do resultado da pena que seria imposta sobre Jesus. Pedro, diante da pergunta de uma criada sobre sua identidade, ele nega três vezes que seja um discípulo de Jesus (Mt 26,30-35. 69-75).

Observação: A negação de Pedro tem sua razão no medo do clima desfavorável promovido pelo Império Romano e pela comunidade judaica. Confessar que Jesus é o Cristo e Senhor pode ser fácil na teoria e nas horas de paz; porém, é muito difícil quando se está diante da perseguição ou outras formas de conseqüências desvantajosas.


Terceira reação:
Revoltar-se contra Deus.

Contexto histórico: O livro de Números narra um episódio da passagem de Moisés e o povo israelita pelo deserto de Parã. A caminhada pelos desertos, desde o Egito, trouxe, para parte do povo, muita insegurança e desconforto. A narrativa de Nm 14,1-4 reproduz essa revolta: Todos os filhos de Israel murmuraram contra Moisés e Aarão (...) “Antes tivéssemos morrido na terra do Egito (...) e por que Javé nos traz a esta terra para nos fazer perecer (...) (v. 2-3).

Observação: A revolta do povo contra a decisão de Deus libertar os escravos hebreus atingiu de cheio a liderança de Moisés. Os livros de Êxodo e Números contam que o povo se revoltou várias vezes diante das dificuldades que a missão exigia enfrentar (Ex 14,11; 16,19-21; 17,3; Nm 11,4-6).


Quarta reação:
Reagir em fé.

(4) Reagir em fé, colocando-se nas mãos de Deus para enfrentar as vicissitudes da vida.

A Bíblia narra vários tipos de reações em fé diante das dificuldades:

1) Ser forte e firme
Contexto histórico: Após o falecimento do grande líder, Moisés, Javé escolhe Josué para substituí-lo. É tempo de dúvida e incerteza em vista da tragédia que envolveu a perda do querido comandante Moisés. É um tempo perigoso para o cumprimento da missão. E Javé adverte ao novo líder:

Sê firme,
e sê forte!

        Eis que!

                   Tu farás este povo herdar a terra que eu jurei dar-lhes a seus pais.

                   (...)

        Eis que! Então,

                  Tu prosperarás teus caminhos,

                  e tu triunfarás.

       Não te ordenei?

Sê firme
e sê forte!

                  Tu não estremeças,

                  e tu não abales.

         Eis que!

                       Contigo (está) Javé

                                  teu Elohim, em tudo que tu andares (Js 1,6.8b-9).

Observação: Para Javé, a arrancada final para a chegada e estabelecimento em Canaã era o sonho dos hebreus e, muito mais do que isso: era o cumprimento da promessa feita quando eles eram escravos de Faraó. Em primeiro lugar, Javé recomendava a Josué e ao povo: sê firme e sê forte! Não pode haver medo diante dos desafios.


2) Não deixar de ler a Tora do Senhor
Contexto histórico: Os 40 anos de caminhada pelo deserto deram aos escravos hebreus uma preciosa munição. Durante a longa caminhada, eles trouxeram uma história rica de sentido e valiosa para o projeto de construir uma nova sociedade. Não se constrói nada na vida em cima de bravatas, euforias e emoções vazias. É preciso lembrar e celebrar os grandes atos de Javé em favor dos hebreus escravos. É preciso também estudar e obedecer os preceitos de Javé para construir uma comunidade feliz.


Tão somente,
                  Sê firme

                  e sê muito forte para cuidar de fazer

                  conforme toda a Tora que ordenou Moisés, meu servo.

                  Tu não desvies dela para a direita, para a esquerda,

                  para que tu tenhas sucesso em tudo onde andares.

                  Tu não apartarás este livro Torá de tua boca,

                  e tu monologarás nele dia e noite para cuidar de fazer

                  conforme tudo que está escrito nele (v.7-8 a).

Observações: Posteriormente, o compositor do Salmo 19 observou que a Torá de Javé é, realmente, o fundamento da prometida e desejada sociedade. Essa comunidade não deve ser estruturada na riqueza, no poder político e na arrogância religiosa, mas baseada na recuperação dos valores da vida plena, na restauração dos incapacitados, da valorização dos pobres e da perpetuação da alegria de todos e todas. Todavia, para que tudo isso aconteça, é preciso cuidar de fazer conforme o Ensino que o Senhor deixou.


3) Temer e servir ao Senhor.
Contexto histórico: Josué enfrentava um conflito que se estendeu por séculos: a unidade do povo em torno de Javé. Essa crise não diz respeito somente ao âmbito do culto, mas a unidade em torno da fé tem importância capital para a unidade política de Israel. Como a sociedade israelita tinha sua base no bayit, casa, Josué dirigiu-se à família como a mais antiga forma de comunhão, quer religiosa, quer política.

E agora,
          Temei a Javé e
          servi-o na perfeição e

          na fidelidade.

          Lançai fora os deuses aos quais serviram os vossos pais (...).

          E se é mal aos vossos olhos servir a Javé,

          Escolhei hoje a quem sirvais:

          Se aos deuses a quem serviram vossos pais (...), ou

          aos deuses dos amorreus em cuja terra habitais.

          Mas, eu e a minha casa serviremos a Javé (Js 24,14-15).

Observação: Quando o imperador romano Constantino declarou-se cristão, ele buscou a unidade cultual dos/as seguidores/as de Cristo. Entretanto, sua intenção foi colocar o povo cristão sob a sua liderança política. O projeto de Josué foi mais abrangente: ele procurou colocar os israelitas sob a liderança de Javé.


4) Não ter medo

Contexto histórico: No ano de 701 a.C, o temível Império Assírio cercou Jerusalém. Sua tática era sufocar os moradores, impedindo que eles recebessem água, especialmente. Entretanto, o rei Ezequias (716-687 a.C), prevendo o cerco da cidade, mandou abrir um túnel para conduzir água, da fonte Gion, para dentro dos muros de Jerusalém. Os assírios não tinham idéia dessa fabulosa obra de engenharia. O Salmo 46 é fruto da superação dessa situação perigosa que poderia trazer graves conseqüências para o povo de Jerusalém.

Eloim é para nós um refúgio,
                         uma força,

                         uma ajuda na angústia muito encontrado.

Assim, não temeremos no transtornar da terra

                                 no vacilar das montanhas no coração dos mares.

                                 Bramam e

                                 espumam suas águas;

                                 estremecem as montanhas em sua altivez. Selah

                                 Há um rio,

                                 seus canais alegram a cidade de Eloim,

                                 santas moradas de Elion.

                                                                                 Eloim está no meio dela,

                                                                                 ela não será abalada;

                                                                                 Eloim a ajuda tomar a direção da manhã (v. 2-6).


Observações: O salmista interpretou a desistência de invadir e destruir Jerusalém como uma ação salvífica de Javé. Em decorrência disso, ele declara que ter medo, diante das angústias e transtornos, é uma atitude contrária à fé em Deus. O profeta Isaías reforça esta posição, falando para o rei Acaz (736-716 a.C): Se não o crerdes, não vos mantereis firmes (Is 7,9). E o poeta popular diz: “Quem anda com Jesus Cristo não tem medo de assombração”.


5) Esperar com confiança.

Contexto histórico: Cada salmo bíblico contém uma história de vida. No Salmo 40, o compositor tinha passado por uma grave situação. Em meio à sua tribulação, ele pediu a ajuda de Javé, foi ouvido e, agora, vem agradecer Seu socorro.


Eu esperei ansiosamente por Javé:
                                    Ele se inclinou para mim e

                                    Ele ouviu o meu grito de socorro;

                                    Ele me fez subir da cova desolada

                                                            do lamaçal de barro;

                                  e Ele colocou meus pés sobre uma rocha,

                                    Ele deu estabilidade a meus passos.

                                    Ele pôs em minha boca uma nova canção,

                                                                      louvor a nosso Deus.

          
                                                                      Muitos verão
                                                                      e temerão

                                                                      e confiarão em Javé (Sl 40,2-4).

Observações: Este salmo é a reportagem da superação de um grande conflito. Ele faz lembrar a narrativa de Êxodo 3,7-9 onde Javé, em resposta aos insistentes pedidos dos angustiados escravos hebreus, aproxima dos queixosos e atende-os, tirando-os daquele “lamaçal de barro” para conduzi-los à Canaã, uma terra de mana leite e mel. O segredo é ter esperança no Senhor.

II. Na Bíblia, quando o povo de Deus enfrentava um problema, ele reunia com a sua comunidade, no culto. Como comunidade, o povo crente tinha duas cerimônias bastante citadas na história bíblica.


(5) Lamentar perante o Senhor (não sacrificar);

Contesto histórico: De fato, as lamentações não dependeram do espaço aberto na liturgia do culto público. Entretanto, os salmos de lamentação foram recolhidos a partir do culto no Templo. Esses salmos são provas históricas que a vida nos tempos bíblicos não menos angustiosa do que em nossos dias. Todavia, um detalhe é bastante saliente nessas lamentações: o povo crente queixava, porque confiava na pronta ação de Javé. Eis o exemplo do Salmo 12.

Salva Javé!
               Eis que! 
                          O leal está no fim.
               Eis que!
                          Desaparecem os fiéis dentre os filhos de Adam.
                          Falsidade eles falam cada um ao seu amigo:

                          Lábios bajuladores e duplo coração eles falam.

                         Javé corta todos os lábios dos bajuladores,

                         a língua do que fala grandezas,

                         que dizem: por nossas línguas seremos fortes,

                         nossos lábios (são) nossos.


Quem (é) senhor para nós?
                                    Da violência dos miseráveis,
                                    do gemido dos empobrecidos,

                                   
agora, eu levantarei, diz Javé:
                                    Eu porei em salvação. Ele respirará para ele.
                                    As palavras de Javé (são) palavras puras,

                                    prata refinada na entrada para a terra

                                    que é purificada sete vezes.


Tu, Javé, nos guardarás,
Tu os protegerás dessa geração para sempre.
Por toda parte, os malvados andam,
quando é exaltada a vileza para os filhos de Adam (Sl 12).

Observações: Este é uma lamentação comunitária, em vista de uma situação muito grave na comunidade. O salmista pede urgência na solução desse conflito. A ocorrência de, pelo menos, 40 composições com esse tipo literário, leva a crer que havia um espaço na liturgia do culto para as pessoas expressarem suas lamentações. No Salmo 12, o grupo queixa de pessoas más, da sua comunidade, que agridem, especialmente, com palavras. Apesar de sua angústia e decepção, os lamentadores confiam na atuação de Javé.


B. Trazer à memória a história da salvação (Páscoa).

Contexto histórico: A celebração da Páscoa é amplamente registrada do AT e NT. Não se trata de uma mera churrascada. A carne assada, para todos os familiares e agregados tinha um caráter significativo. Eles reuniam para trazer à memória a história da salvação do povo hebreu. Era preciso lembrar intensamente para que a nova geração soubesse que Javé está sempre pronto a ouvir o grito de angústia do povo oprimido, e libertá-lo de todo tipo de opressão.

(...) Quando vossos filhos vos perguntarem: “Que rito é este?”
            Respondereis:

                               É o rito da Páscoa para Javé que passou adiante das casas
                               dos israelitas no Egito, quando feriu os egípcios, mas livrou

                               as nossas casas (Ex 12,26,28).

Observações: Ao longo dos séculos, o povo bíblico celebrou a Páscoa como um memorial da libertação dos hebreus do Egito. É um sinal, isto é, anuncia o milagre da transformação de um povo escravizado em comunidade liberta pela intervenção milagrosa de Deus. A celebração da Páscoa, assim, nutre os celebrantes para a caminhada, enfim, para os embates próprios do dia-a-dia do povo crente. Antes de enfrentar os episódios da “paixão” e “morte”, Jesus prepara os discípulos para os desafios da vida, e diz: (...) no mundo tereis tribulações, mas tende coragem: eu venci o mundo (Jo 16,33).

Contribuição nas aulas de exegese do Dr. Tércio Machado Siqueira, professor na Fauldade de Teologia da Igreja Metodista






















































































Continue Reading...

terça-feira, 2 de novembro de 2010

As mulheres nas Cartas Paulinas

Para perceber a questão do papel das mulheres no início do cristianismo, estaremos datando os escritos do Novo Testamento da seguinte forma: cartas autênticas de Paulo: I Ts, Gl, Fp, Fl, I e II Co e Rm, alguns autores concordam que são datadas entre os anos de 50-64 d.C.; as Deuteropaulinas de Cl, II Tm, I Pd, Tg e Mc entre os anos 67 a 90 d.C.. As cartas de II Ts, Ef, I Tm, Jd, Hb, Mt, Lc, At são datadas entre 90 a 100 d.C. e, por último as cartas de Tt, as Epístolas Joaninas e Ap datadas entre 100 a 110 d.C.

Ao analisar a carta de I Coríntios nos capítulos 7.1ss (casamento e virgindade), 11.2ss (cabelo das mulheres) e 14.33ss (mulheres caladas na assembleia) com mais intensidade, pode-se concluir que um número considerável de mulheres, pertenceu a comunidade coríntia. No entanto, Ekkehard W. Stegemann e Wolfgang Stegemann em sua obra, afirmam que, a grande maioria das mulheres citadas por Paulo, ao que tudo indica, “é não-casada”. Mas há de considerar uma preocupação preconceituosa em relação às mulheres casadas no capítulo 14.33b-35 [1], pois no capítulo 11, quando solteiras, elas têm total liberdade no culto. Por outro lado, (cap.14) a mulher casada deve permanecer calada na assembleia.

Crossan, além de considerar o trecho do capítulo 14 uma inserção, o autor também compreende que a liderança feminina foi “cruelmente denegrida com a finalidade de instituir o controle exclusivamente masculino das assembleias cristãs”. Se por um lado, no capítulo 11.2-16 a mulher (solteira) poderia orar e profetizar, no capítulo 14.33b-35 elas, as casadas, deveriam permanecer caladas. Se tivessem dúvidas, deveriam perguntar ao marido em casa, portanto, uma posição muito preconceituosa em relação às mulheres.

Carlos Mesters advoga que é preciso fazer um equilíbrio entre os quatro textos que tem levantado diferentes opiniões: I Co 11.2-16; I Co 14.34-35; Ef 5.21-24 e I Tm2.9-15 (I Timóteo datado no final do primeiro século) que, para o autor, é “o resumo das palavras de Paulo contrárias à participação da mulher” [2]; com outros textos que enfatizam a participação da mulher na comunidade, como por exemplo, Priscila, Maria, Júnia, Trifena e Trifosa, a “querida Pérsida” (Rm 15.12), Júlia e “sua irmã”, Olímpias entre outras. Mesters considera que “as palavras duras de Paulo, contrárias à participação da mulher, não podem ser interpretadas como um ensinamento geral, válido para todos os tempos e situações”.

Nas cartas paulinas as mulheres são mencionadas várias vezes por Paulo (Rm 16), algumas delas podendo ser identificadas como judias, por exemplo, Priscila, Herodiana e Júnia (Rm16.3,7,11) ou de um modo mais genérico, mas elas estão ali, no meio das comunidades do I Séc.. Essas mulheres são lembradas por Paulo, entre outros, escravos e escravas ou aos demais membros de uma economia doméstica (Rm 16.11). A mulher Apóstolo.

Ser apóstolo, segundo a Epístola aos Romanos, não era difícil, e uma mulher poderia alcançar este status. O Novo Testamento indica somente Júnia, que é judia, considerada sob o título de “apóstolo” (Rm16.7). É verdade que muitos estudiosos interpretam “Júnia” ser “Júnias”, isto é, um homem, pois seu nome é “grafado em grego no acusativo, Junian. Por causa disso, o nome passou a ser identificado como masculino – argumentava-se que Junian era o caso do acusativo do nome masculino Junia (nu)s” [3]. Paulo a considera juntamente com Andrônico seus parentes e companheiros de prisão, como apóstolos exímios que o precederam na fé em Cristo.

Em relação à Júnia, Fiorenza afirma que tanto Andrônico como Júnia, realizam todos os critérios para um verdadeiro apostolado e, eram apóstolos mesmo antes de Paulo [4]. Duncan Alexander Reily afirma que um dos comentários mais antigos que apontam ser Júnia uma mulher, está o de Crisóstomo que, “na sua homilia nº XXXI fala com entusiasmo de Júnia e Andrônico”.

A- As mulheres cooperadoras na missão

Com o conceito de Synergós, companheiro(a) de trabalho, colaborador(a), Paulo cita as pessoas que corroboravam com ele na propagação do evangelho. Tanto é verdade que Priscila e Áquila, além de serem mencionados nas Cartas Paulinas de Coríntios e Romanos, também são mencionados nas Cartas Deutero-Paulinas de II Timóteo e Atos, ou seja, 40 ou 50 anos mais tarde. Priscila ou Prisca foi uma mulher que desempenhou um papel missionário importante do lado de Paulo, juntamente com Áquila, seu marido. Prisca precedeu a Paulo no trabalho missionário, colaborou com ele, mas, sem ficar subordinada [5]. Nas Epístolas há, ainda, menção escassa de outros casais missionários como Filólogo e Júlia, e Nereu e sua irmã (Rm 16.7). Mas, há mulheres, como Febe, que são aludidas sem nenhum homem como: Maria, Trifena, Trifosa e Pérside (Rm 16. 6,12).

Essas mulheres são consideradas por Crossan, como “as mulheres que realizaram uma difícil missão”, pois a expressão grega usada por Paulo para designar atividades apostólicas especiais é kopiao, que tem o significado de “trabalhar com empenho exaustivo”. Nesse sentido, Paulo emprega o termo grego duas vezes para si mesmo em Gl 4.11 e I Co 15.10, e quatro vezes em Romanos exclusivamente para as mulheres: Maria, Trifena, Trifosa e Pérside. Tudo indica que essas mulheres colaboraram exaustivamente com a missão.

B- As mulheres na assembleia

A participação das mulheres na assembleia parece acontecer mais na comunidade de Corinto. Elas do mesmo modo oravam e profetizavam nas reuniões da comunidade (ver o item “o papel das mulheres na Ekklesía de Corinto” com mais profundidade), além da participação na glossolalia e sua interpretação e, no orar ou cantar de salmos (I Cor 14.2,26). Para Stegemann, a participação de mulheres na função de liderança, era também a forma comunitária da Ekklesía, equivalente à economia doméstica antiga. Essa função de liderança, segundo os pesquisadores Stegemann, atingiu seu ápice quando “no séc. III d.C. as comunidades cristãs pararam de reunir-se em casas e começaram a reunir-se na esfera pública, na polis”.

Em Corinto, Paulo discute normas culturais aceitas referentes ao cabelo (11.13-15) e adorno da cabeça da mulher em público (11.5-6), como afirma Elliott, “não porque quer impor seus próprios padrões culturais (judaicos? gregos? romanos?) às mulheres coríntias, mas para estabelecer um princípio que considera basicamente incontroverso”, pois estes costumes trazem honra ou desonra para a “cabeça” social da pessoa.

Este estudo é parte integrante do trabalho de Conclusão de Curso da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista apresentado por José Geraldo Magalhães Júnior. Todos os direitos reservados.
___________________________

Notas:

[1] Este texto é considerado por muitos exegetas uma interpolação, além de ser um texto mais antigo. Por essa       razão a mulher deveria permanecer calada na Assembléia, em caso de dúvidas que questionasse seu marido em casa.

[2] MESTERS, Carlos. Paulo Apóstolo um trabalhador que anuncia o Evangelho. São Paulo, SP. Paulus, 11ª Ed. 2008. p.96 a 105. Mesters considera o trecho do capítulo 14.34-35 como autêntico. Por essa razão, o autor leva em consideração que é preciso considerar que Paulo “sofreu críticas por partes das comunidades conservadoras (I Co 11.16 e 14.36-38). Por isso, naqueles quatro textos [I Co 11.2-16; II Co 14.34-35; Ef 5.21-24 e I Tm2.9-15] ele estaria pedindo moderação às mais apressadas”. Mesters quis dizer que o exagero de algumas mulheres poderia colocar em risco o processo de abertura à participação das mulheres dentro da comunidade. p.105.

[3] CROSSAN, John Dominic, 2007. “Em busca de Paulo...” p.114. Para a tristeza dos que defendem essa tese, Crossan defende que há mais de 250 casos na antigüidade do emprego do nome Júnia para as mulheres e, nunca o uso da mesma forma (Júnia) como abreviação para o nome masculino Junianus. “O problema, naturalmente surgiu, por causa da saudação calorosa de Paulo para os dois membros desse casal e, especialmente, para a mulher, Júnia”.

[4] FIORENZA, 1992, “As origens Cristãs a partir da mulher...” p.206. Reily aponta em sua obra: REILY, Duncan A.. Ministérios femininos em perspectiva histórica. 2ª Ed. Campinas, CEBEP; São Bernardo do Campo, EDITEO, 1997. p.37  que “discípulas e discípulos foram designados como membros do movimento de Jesus”. Nesse sentido, é o texto de Atos 9.36: “E havia em Jope uma discípula (mathétria) chamada Tabita...”. O destaque dado a Tabita ou Dorcas sugere que ela exercia real liderança na congregação de Jope.

[5] Ao pesquisar os textos que aparece Prisca e Áquila, constatamos que o nome de Prisca é mencionado sete vezes, juntamente com o marido, das quais quatro vezes é nomeada em primeiro lugar (1 Cor 16.19; Rm 16.2-5; 2 Tm 4.19; At 18.18; 26). Pelas indicações dos trechos, Prisca foi missionária separada e mais conhecida do que Áquila. Parece, inclusive, segundo Atos dos Apóstolos 18.26, que era doutrinada, porque interveio no ensino cristão de Apolo, que é apresentado no segmento como homem culto. Isso evidencia que ela desempenhou um papel importante na comunidade. No discurso de Fiorenza, contrariando essa posição, a autora defende que Prisca é reduzida à “dona de casa de Áquila e conseqüentemente esquecida” FIORENZA, 1992, “As origens Cristãs a partir da mulher...” p.209.
Continue Reading...

sábado, 23 de outubro de 2010

Mulheres na Bíblia

Antes do episódio em Nova York algumas mulheres precisam ser lembradas e, a Bíblia pode nos ajudar nisso. Sara foi uma delas, mãe de Isaque aos cem anos, teve um papel fundamental para se cumprir à promessa na vida de Abraão. Débora ocupou um lugar de destaque nas Escrituras. Foi uma profetisa. Também era mulher casada e juíza em Israel. Débora condenou, pelo menos, a negligência dos homens (Jz 4:4-10). Uma profetiza que julgava Israel. Seus dons proféticos lhe deram grande influência em um tempo de desespero e confusão (Jz 4.6, 14; 5.7), sendo uma verdadeira “mãe de Israel”. Através do seu glorioso cântico de triunfo (cap. 5), sendo uma das mais antigas e preciosas poesias hebraicas, Israel teve paz por quarenta anos (Jz 5.32).

Hadassa era uma mulher guerreira, valente, perdeu seus pais sendo muito jovem. Talvez esse nome não nos seja desconhecido. Foi criada por seu tio Mordecai e teve seu nome mudado para Ester ao ser consagrada Rainha. Ela não tinha medo das ameaças, tanto que arriscou a sua vida em favor do seu povo, os judeus. “Se perecer, pereci” dizia ela (Et 4.16). Através da oração e intercessão livrou os judeus da morte. Instituiu juntamente com Mordecai a festa do Purim entre os judeus, que significa festa da sorte até os dias de hoje.

Quando nos aproximamos do Novo Testamento, descobrimos a posição das mulheres piedosas, honradas e belas no mais alto grau. A virgem Maria "agraciada”, "bendita entre as mulheres”; sua prima Isabel, mãe de João Batista; Ana, idosa viúva de oitenta e quatro anos, dedicada ao serviço de Deus, são as mais belas personagens conectadas ao nascimento de Cristo.

Maria, a irmã de Lázaro, assentava-se aos pés do Senhor para ouvir a Sua palavra. Foi ela que O ungiu para o Seu sepultamento, uma ação que jamais perderá a sua fragrância: "onde quer que este Evangelho for pregado, em todo o mundo, também será referido o que ela fez para memória sua” diz o texto de Mateus (26:13; Jo 12.1-8). Ela recebeu um elogio que não poderia ser mais elevado: "Esta fez o que podia” (Mc 14:8).

A Maria Madalena? Aquela que “dela saíra sete demônios” (Lc 8.2) e era rejeitada pela sociedade, foi acolhida por Jesus e, a ela foi concedida a alta honra de transmitir a maravilhosa mensagem da ressurreição de Cristo aos Seus discípulos: "Dize-lhes que eu subo para o meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus”(Jo 20:17).

Pensem nas mulheres que serviam ao Senhor Jesus relatado no capítulo 8 de Lucas: “Joana, Suzana e muitas outras que prestavam assistência com seus bens” (Lc 8:3). Que honra!

As mulheres anônimas. Uma é chamada por Jesus de “Mulher” (Jo 4.21), para nós a “Mulher Samaritana”, que teve coragem e ousadia de pedir a Jesus a “água da vida” (Jo 4.15) e, largando seu cântaro junto ao poço, partiu em direção à cidade para anunciar aos outros sobre o Cristo e, “muitos samaritanos daquela cidade creram nele, em virtude do testemunho da mulher, que anunciara: Ele me disse tudo quanto tenho feito” (Jo 4.28-29, 39).

Em outra ocasião a Bíblia chama de: “uma mulher da cidade, pecadora” (Lc 7.36). Mas teve a coragem de ir a casa do fariseu Simão, com um vaso de alabastro com ungüento e, “estando por detrás, aos seus pés, chorando, regava-os com suas lágrimas e os enxugava com os próprios cabelos; e beijava-lhe os pés e os ungia com ungüento” (Lc 7.38). Pela sua atitude audaciosa, recebeu de Jesus a Salvação pela sua fé.

E quando chegamos ao tempo quando Cristo já havia subido aos céus, e o Espírito Santo já havia sido enviado, somos lembrados das "mulheres gregas da classe nobre” de Beréia, “que examinavam as Escrituras todos os dias, ao receberem a palavra pregada por Paulo e Silas, para ver se as coisas, de fato, eram assim” (At 17. 10-12).

Também aquelas que o apóstolo Paulo elogiou, que trabalharam no Senhor (Rm 16). Ou Priscila, que sob a liderança de seu marido, teve o privilégio de instruir o eloqüente Apolo, declarando-lhe "mais pontualmente o caminho de Deus” (At 18:26). Que belo e honrado caminho foi esse trilhado pelas mulheres cristãs!
Pr. José Geraldo Magalhães Júnior
Continue Reading...

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Sacramentos como Graça de Deus

Batismo recepção de novos membros na comunhão da Igreja

Depende unicamente da graça de Deus para que os homens encontrem o caminho da fé e para a comunidade cristã, a graça que antecede a toda ação humana e cria a possibilidade de receber a salvação. Essa salvação que está fundamentada na reconciliação em Cristo (2 Co 5.19-21) – e que liberta das cargas e cura das feridas do pecado pelo qual o homem foi afastado da comunhão com Deus – é oferecida a todos os homens no anúncio do Evangelho e apropriada pessoalmente no Batismo, pelo qual o homem é recebido na comunhão da nova vida com Deus, se exprime o aspecto objetivo e visível do evento da salvação. O fim do Batismo que a Igreja realiza por incumbência de Cristo, é tornar visível a justificação e aceitação dos que estavam separados de Deus, o que só se realiza pela graça. Deus que nos deu a vida terrena, quer dar-nos também a vida eterna, na aquisição da qual nossos próprios esforços não são necessários, nem teriam qualquer sentido. No Batismo o homem pecador é entregue como propriedade a Cristo crucificado e ressurreto e uma nova vida lhe é conferida pelo poder de Cristo e de seu Espírito.

Tal como a Ceia, o Batismo é “palavra visível de Deus”, sinal válido, instituído por Cristo, da nova comunhão, em que ele recebe os batizados. A esta recepção deve corresponder o sim da fé nos batizados, pelo qual se recebe a salvação de Deus. Batismo, fé e comunidade pertencem, portanto, objetivamente, um ao outro; nenhum dos três pode existir dentro da compreensão da tradição neo-testamentária, sem os dois outros.

O Batismo é “penhor e sinal eficaz de que a ação salvadora de Deus se aplica pessoalmente ao batizado”. Alem disso, ele deve ser respondido com o sim da fé do homem, o qual assim faz valer livremente para si o que Deus fez em seu favor. Assim ele afirma, ao mesmo tempo, a sua nova identidade de filho de Deus, que lhe foi conferida no Batismo. Juntamente com os nomes do Deus trino, é pronunciado o nome do batizando, com o que fica claro que pertence a Deus, que em sua fidelidade vai atrás do homem, e com amor paciente espera ser correspondido neste seu amor.

Na tradição metodista, neste conceito é vista a aliança de Deus que coloca o fundamento de uma comunhão renovada entre Deus e homens, tanto na aliança antiga com Israel como na aliança nova para todos os povos. O Batismo é o sinal dessa nova aliança da graça de Deus, da qual não são excluídas nem mesmo as crianças.

Já em seu tratado “Sobre Batismo”, Wesley chamara de “entrada da aliança de Deus” um dos efeitos do Batismo; mais tarde, em conexão com o “culto de renovação da aliança”, esta relação foi intensificada. Neste sentido, o culto (de renovação da aliança) com a Santa Ceia é entendido como certificação da graça do Batismo e como um novo compromisso de viver para Cristo e não para si mesmo.

O culto de renovação da aliança com Deus é para a atualização da palavra salvífica de Deus recebida no Batismo (das crianças) e para a renovação das promessas do Batismo, e ainda para a satisfação da necessidade dos cristãos, que receberam o Batismo infantil, de experimentarem a grande alegria nesta, como que, repetição do Batismo, pois aí se trata da integração, vivida pessoalmente, na salvação; tudo confessado publicamente numa reunião festiva da comunidade. Tal cerimônia é ainda hoje em dia, frutuosamente celebrada nas igrejas metodistas, e chamada de “renovação da aliança batismal” durante a qual jovens e adultos são batizados e recebidos na Igreja. Com isso se cria um remédio contra o perigo da desvalorização do Batismo, que surge na praxe batismal pouco diferenciada – o que, aliás freqüentemente é aduzido para um argumento de um segundo Batismo. Quando Batismo e fé, bem como a integração compromissada na comunidade, são tomados a sério – então o Batismo deixará de ser algo que não tem referência ao compromisso da fé.

Embora o Batismo faça parte da recepção na Igreja, não o consideramos necessário para a salvação. Quanto ao valor de salvação, atribuído a ele pela Palavra de Deus, este não depende de uma “correta” doutrina da fé, nem de determinadas concepções doutrinárias ou dogmáticas (que frequentemente restringem a fé através de intelectualizações).

O fundamento decisivo da salvação é o amor incondicional de Deus, que no Batismo é atribuído a cada indivíduo e que o crente (mais tarde) aceita livremente, e assim reconhece a sua natureza de filho de Deus.

Baseados nessa compreensão do Batismo – apesar das duas práticas de Batismo infantil e Batismo de adultos – podemos falar de um só Batismo, pois “o que Deus faz no Batismo não só se torna válido, só posteriormente, pela fé subjetiva, nem recebe caráter daí de verdadeiro”. Por isso podemos concordar com a observação de F. Herzog: as crianças não pertencem à Igreja porque seus pais são membros da mesma; mas, certamente foi uma “intuição correta” da Igreja compreender que a renovação do homem não depende do fato de que alguém é dono de razão desenvolvida, ou de capacidade madura de raciocínio; não é preciso ser adulto para participar naquilo que acontece no Batismo.

“Decisiva para o Batismo de crianças é somente a certeza de que mesmo a palavra divina não entendida age sobre a consciência – sobretudo no âmbito da comunidade cristã”.

Foi de maneira muito feliz que teólogos e leigos metodistas da França – depois de muitas conversações e diálogos sobre concepções concorrentes de Batismo – assim formularam o sentido a ser dado tanto no Batismo de crianças como de adultos:

“É certo que a fé é sempre a resposta à ação salvadora de Deus; mas o momento da resposta da fé pode ser adiada. Os que foram batizados como crianças dão a resposta no momento em que o Espírito de Deus lhes abre os olhos e o coração à salvação, que já lhes foi oferecida. Também os batizados na idade adulta devem, segundo Romanos 6, ser sempre de novo exortados a darem a sua resposta de fé em obediência. Não é necessário que a fé primeiro crie as bases sobre as quais Deus possa atuar, porque o fundamento foi posto em Jesus Cristo, de uma vez para sempre. Visto sobre este fundo, também o Batismo de crianças é Batismo no sentido bíblico. É evidente que os seus efeitos devem ser recebidos sempre de novo na fé”.

Esta conexão característica e polar entre a palavra de salvação (no anúncio do Evangelho e no Batismo) e aceitação de salvação (na fé e na confissão pessoal dos batizados), também aparece na estrutura da Igreja Metodista: a recepção na Igreja pressupõe não só o Batismo mas também a profissão de fé – o Batismo como afirmação visível e válida do amor de Deus; a profissão como amor audível e pessoal da resposta de fé do homem.

“O Batismo – afirmamos juntos com as outras Igrejas – é o fundamento irrenunciável para se tornar membro da Igreja; é conferido uma só vez e para sempre, sem repetição, assim como Cristo morreu uma só vez, e para sempre”.

Quem foi batizado em criança e se decidiu pela confissão pessoal da fé, está apto para a recepção na comunidade dos crentes; quem, sem ter sido batizado, encontra o caminho para a fé em Cristo, receberá o santo Batismo, como primeiro passo para entrar na Igreja.

“Por isso, Batismo e recepção como membro da Igreja constituem basicamente um só evento, mesmo quando separados pelo tempo, como no caso do Batismo infantil. O Batismo não pode, por si só, ser considerado suficiente, mas em união com fé, vida e anúncio, na comunidade”.

O sim da fé encontra a sua expressão visível e constatável na solenidade da recepção como membro da Igreja. Quem encontrou a Deus e a si mesmo novamente, agora encontra nos outros cristãos a comunidade daqueles que estão unidos na caminhada para chegar à meta de suas vidas, isto é, a comunhão plena e perfeita com Deus.

A institucionalização da recepção de cristãos adultos na Igreja é um aspecto essencial com que se auto-define a Igreja Evangélico- Metodista. Base para essa recepção não é submeter a sua fé à prova –coisa impossível a homens – mas manifestar a aceitação da salvação, dada em Cristo de forma visível no Batismo e audível na confissão de fé, para que sua credibilidade seja testemunhada pela comunidade.

Os que foram recebidos como membros da Igreja se comprometem a levar uma vida sob a condução do Espírito de Deus e a participar na vida e no serviço da Igreja. Os outros membros da Igreja se comprometem a aceitar os recém-professos como irmãos e irmãs e levá-los “a experimentar o amor e o companheirismo cristão, em comunhão cordial”. Cada batizado é assim responsabilizado

“a reconhecer e atestar, por toda a sua vida, a salvação atribuída no Batismo, de amar a Deus e conduzir-se como quem pertence a Cristo e à sua Igreja”.

A conclusão, por um culto divino, do processo de educação religiosa de crianças da idade de 12-14 anos – freqüentemente chamado “consagração” – não deve ser identificada com recepção como membros da Igreja, pois se trata de dois processos diferentes, embora festejados solenemente. Entretanto, no mesmo culto divino podem ser “consagrados” jovens que terminaram sua instrução religiosa e outros, homens e mulheres, jovens ou adultos, podem ser recebidos como membros plenos da Igreja, ficando assim claro a todos os participantes que quem recebe o diploma da instrução religiosa não é por isso, ainda, recebido na Igreja. Neste culto fica igualmente evidente que a comunidade cumpriu a promessa, feita por ocasião do Batismo das crianças, de instruí-las na fé cristã. Ao mesmo tempo, a comunidade espera em oração pela decisão pessoal e se prontifica a oferecer a esses jovens, em seu meio, espaço para viver e se desenvolver, até pedirem a sua recepção como membros plenos e responsáveis, por decisão livre pessoal. Desta forma, ficam satisfeitos os dois lados da ação salvadora de Deus: o amor incondicional, que em Cristo reconcilia todo o mundo com Deus e oferece salvação a todos os homens, bem como a capacitação e a plena e livre escolha dos crentes para um sim próprio e pessoal, em que fazem valer para si o amor de Deus e a aceitação sua como filhos e filhas amadas.


Bibliografia:

KLAIBER, Walter e Manfred Marquardt. Viver a Graça de Deus: Um Compêndio de Teologia Metodista / Walter Klaiber e Manfred Marquardt; [Tradução: Helmuth Alfredo Simon]. São Bernardo do Campo, Editeo, 1999. pg. 353-357.
Continue Reading...
 

Reflexões pastorais Copyright © 2009 WoodMag is Designed by Ipietoon for Free Blogger Template