quarta-feira, 28 de maio de 2008

Lutero

Lutero, afinal, o que quis?[1]

Por José Geraldo Magalhães Júnior

Para escrever algo sobre Lutero, deve-se levar em conta que ele continua muito vivo e presente, não porque as igrejas protestantes são frutos da reforma, mas porque também muito dele está presente de modo subjacente mesmo em outras igrejas e no mundo moderno. Para responder o título dado por Altmann, Lutero, afinal, o que quis? é necessário analisar as limitações e os erros desse reformador.
Lutero sofreu várias acusações fora do âmbito das igrejas, por exemplo, sua relação com os príncipes que sofrera várias oscilações e sua postura frente a revolta dos camponeses. No âmbito ecumênico há algumas ressalvas segundo alguns autores, pois, o próprio Lutero menciona como controvertidas as doutrinas do servo arbítrio, a limitação dos sacramentos que é diferente da eucaristia em si e a doutrina dos dois reinos.
Entre as ressalvas feitas por luteranos, Altmann classifica como superadas por Lutero: seu linguajar grosseiro, suas incoerências na construção de uma igreja evangélica, suas recaídas no pensamento medieval, à formação de um estado confissional protestante e seu posicionamento tardio frente aos judeus. Alguns autores como Mühlhaupt, chegam a mencionar um certo equilíbrio no emprego da Escritura e na questão da Santa Ceia.

O movimento de Lutero adquiriu quatro nomenclaturas: protestante, reformador, luterano e evangélico. A primeira, protestante, passou a ser uma caracterização do movimento luterano. No entanto, para Altmann há uma contradição aparente. Lutero acreditava em uma consciência libertada pela palavra de Deus, e essa, tem o dever de protestar. Todavia, a própria consciência precisa passar pelo processo de libertação, que provém da justificação. Protestante não é aquele que está contra alguma coisa, mas que protesta em favor de alguma coisa. Para Gustavo Gutiérrez, em sua Teologia da Libertação, todo anúncio implica numa denúncia e toda denúncia está a serviço do anúncio.

O termo reformador também tem uma contradição: Lutero acusava Roma de ser inovadora e sempre de novo se defendia das acusações de inovação. Para Lutero a igreja antiga se contrapõe a uma igreja reta e a outra falsa. Na verdade, Lutero nunca quis reformar, mas pregar o evangelho. Para ele a palavra de Deus é de tal poder que transforma a realidade. Foi nesse pensamento que refutou Erasmo: “A palavra de Deus, quando vem, vem para mudar e inovar o mundo”. Portanto, a Reforma é antes de qualquer coisa, fruto da pregação da palavra de Deus, não do planejamento de Lutero. O restante é conseqüência de um homem de coragem que quis pregar o evangelho e decidiu traduzir a bíblia, para que os alemães tivessem acesso à palavra de Deus.
Os luteranos? Essa é uma nomenclatura que o próprio Lutero não aprovara. Pois ele mesmo era contra, na sua concepção, ninguém deveria ser chamado de luterano e sim cristão, porque a doutrina não era dele. Como se não bastasse, ele vai mais a diante fazendo referência em I Co 3 classificando-se como um saco pobre e fedorento de vermes. Ele não queria ser o mestre de ninguém, porque tinha junto à comunidade o mestre dos mestres que é Cristo. Percebe-se então, uma nítida consciência de distância entre ele e a palavra de Deus.
Lutero estava cada vez mais convicto de que a causa evangélica, era um constante retorno à palavra de Deus expressa na Bíblia. Daí sua incansável atividade de pregador, pois, o evangelho vem da palavra. Sua autoridade é espiritual. É do termo evangélico, que provém a coragem para o protesto nascendo o estabelecimento da Reforma seguido do luteranismo.

Retornamos a pergunta deste capítulo: Lutero, afinal, o que quis? Uma liberdade evangélica. O contrário do que se tem visto nos dias atuais, onde se pensa que pode fazer de tudo. Lutero tinha um conceito da liberdade evangélica. Para ele o cristão é um ser livre de todas as coisas e não está sujeito a ninguém, isso vale para o âmbito da fé. Para ele a compreensão entre pessoa e obra é fundamental. Segundo Altmann, Deus quer vir por detrás das obras exteriores e deseja, sobretudo, alcançar as pessoas em sua integralidade. Mas não pára por aí. Lutero segue adiante em seu tratado sobre As Boas Obras, ele faz uma inversão muito significativa ao afirmar que as obras feitas para a igreja como: jejuns, orações, penitências, veneração de relíquias, são decididamente más e coisas do diabo; por outro lado, as obras boas são aquelas que expressam amor ao próximo. O ponto crucial onde essa inversão acontece é a cruz de Cristo. Pois é na cruz que existe a renúncia e o direcionamento da vida humana e Deus. O que, aliás, aqui está inserido a “theologia crucis” de Lutero.
Lutero deixou uma marca muito profunda no conceito de santidade. Porém, para entender a “nova santidade” de Lutero, é preciso inseri-la no contexto de identificação pela cruz, e entender a justificação pela fé como libertação para assumi-la. Isso implica em passar do lugar de vocação e santidade, para o contexto dos movimentos e organizações populares. Aí está o grande desafio, onde se decide viver em liberdade e na cruz de Cristo, renunciados e dispostos a viver somente pela graça de Deus.

[1] ALTMANN, Walter. Lutero, afinal, o que quis? In: Edição Especial da Revista “Estudos Teológicos”, Reflexões em torno de Lutero. São Leopoldo, RS, 1981, pp.9-28.

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