quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Ética Ecológica


DUSSEL, Enrique. Por um mundo diferente: alternativas para o mercado global. Petrópolis: Vozes, 2003. Capítulo 2 “Alguns princípios para uma ética ecológica material de libertação” – relações entre a vida na terra e a humanidade”. pp.23-35.

Conhecido na América Latina por suas obras nos campos da História da Igreja e da Ética, Enrique Dussel, é um argentino que vive no méxico há várias décadas. Teólogo católico leigo, escreveu vários artigos e livros nessas duas áreas, realizando seus estudos em várias universidades da europa e doutorou-se em Paris, na França.
Este artigo de Enrique Dussel está situado numa perspectiva de uma Ética da libertação. Para o autor a Terra não pode ser destruída, mas sim a vida que nela está contida. “A vida é condição absoluta da existência humana, e por isso a Vida da Terra se chama condição ampliada. Na realidade, a terra não pode ser destruída, nem tampouco a Natureza (...) o que nela pode ser destruída são as condições para a existência da Vida” (p.25). Neste caso, entende-se que a Vida pode ser destruída na Terra.
O autor interpreta a ética material como a ética da vida e, sobretudo, ele assume a ética material que “é necessária, mas não suficiente”; e a moral formal que “é necessária, mas tampouco suficiente” dentro de um processo crítico libertador em um movimento social, histórico e diacrônico. Nesse sentido, o autor afirma que:
Isto têm a máxima atualidade, porque a destruição ecológica (como condição de possibilidade) e a pobreza (como efeito) são dois fenômenos correlacionados que têm uma mesma causa e, ambos exigem uma compreensão material e, simultaneamente, a mediação da consensualidade formal e comunitária. (p. 26).
Podemos perceber então, que a ética ecológica tem a ver com a defesa da vida, fica situada de tal forma que não poderá ser satisfatoriamente fundamentada. Assim, Dussel aponta que a tradição dualista, “de decidida negação da determinação material da ética, o cuidado angustioso, para conservar a vida não tem significado ético-moral algum; a ética é considerada apenas como mero egoísmo ou motivação patológica ou caprichosa” (p.27).
O autor afirma ainda que é preciso recuperar a referência material, uma vez que, tais fatos só podem ser descobertos por contradição ou não-cumprimento. Por essa razão, é necessário reconstruir a verdade de uma ética material e articulá-la a uma moral formal, “tendo como horizonte a destruição ecológica da terra articulada concomitantemente com a miséria, a pobreza, a opressão da maioria da humanidade (levando-se em consideração fenômenos tais como o capitalismo central e periférico, o racismo, o machismo etc.)” (p.27). Por isso a passagem de Mateus “tive fome e me destes de comer (Mt 25.35) inclui exigências de ética material: a fome é um tipo de sensação e dor, e a comida é fruto do trabalho e da terra”. (p.27). “A dimensão ecológica ficaria assim definida material (como condição absoluta de sobre-vivência) e formalmente (como é preciso decidir intersubjetivamente no plano privado e público, nacional ou internacionalmente) (p.28).
Dussel realiza uma última reflexão material embasado em Karl Marx. Diz o autor que “Marx é considerado por muitos um economista ‘antropocêntrico’ sem sensibilidade ecológica. Podemos, contudo, recordar a esse respeito um texto de 1875:” (p.28) Vejamos:
Primeira parte do parágrafo [do programa de Gotha afirma]: O trabalho é a fonte (Quelle) de toda riqueza e de toda cultura. O trabalho não é a fonte de toda riqueza – começa a explicar a Marx. A natureza é a fonte de toda riqueza é a fonte dos valores de uso (que são os que realmente integram a riqueza material!), precisamente o trabalho, que não é senão a manifestação de uma força natural, da força de trabalho do homem. (p.28).
Nesta citação acima, Marx quis dizer que somente dois níveis da realidade não têm valor de mudança (econômica), ou seja, a natureza e o ser humano. “O que o ser humano procura honestamente é um sistema cultural vigente, um bem que é válido, ecologicamente sustentável (que deve ser conteúdo ético material e mediação racional consensual formal)” (p.30).
Dussel afirma que o capitalismo atual, segundo a visão de Marx, com seu critério fundamental de “aumento de taxa de lucro”, implicitamente propõe o seguinte princípio: “Aquele que age segundo o critério do “aumento da taxa de lucro” já propôs sempre a priori que nem o princípio ético material da sobre-vivência nem o princípio moral formal de consensualidade podem ser obstáculos ou limites para a obtenção desta finalidade”. (p.32).
Assim, entende-se que “o critério de taxa de lucro” se opõe ao critério de sobre-vivência; portanto, a tecnologia destrutiva da vida ou da terra e, conseqüentemente da humanidade, é usada instrumentalmente no critério ‘“do aumento da taxa de lucro’, e não com base no critério material da ‘permanência e desenvolvimento da vida’, da terra (ecologia) e da sobre-vivência da humanidade”. (p.33).
Por último, Dussel destaca que “um projeto de libertação ecológica da terra deve saber integrar os princípios materiais da ética, a consensualidade formal comunitária da mútua consciência, com o processo diacrônico co-solidário de toda a humanidade” (p.35). Neste caso, “as Igrejas são um desses últimos ‘recursos’ éticos dessa humanidade, como comunidade de comunicação moral que cria intersubjetividade responsável na leitura e releitura do Texto revelado, insubstituível na hora atual” (p.35). Uma das condições que o Reino de Deus inclui para que haja possibilidade de Vida na Terra, é a vida da Humanidade, ou seja, é preciso mudanças e um novo caminhar.

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